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Tá na internet, tá na TV, tá nos livros... tá no nosso dia a dia. O jornalista André Bernardo mostra como fenômenos culturais e sociais mexem com a saúde — e vice-versa.

A história do médico negro que revolucionou a psiquiatria no Brasil

Homenageado em projeto artístico, Juliano Moreira modernizou o atendimento a pacientes psiquiátricos, viajou o mundo e combateu o racismo científico

Por André Bernardo
10 fev 2025, 13h58
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O médico Juliano Moreira agora estampa a fachada de histórica instituição psiquiátrica no Rio de Janeiro (Divulgação/Reprodução)
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O psiquiatra Juliano Moreira (1873-1933) é o mais novo retratado pelo projeto Negro Muro, do produtor cultural Pedro Rajão e do artista urbano Fernando Cazé. A iniciativa homenageia personalidades negras importantes para a história brasileira.

O rosto de Moreira agora enfeita a fachada do Instituto Municipal Philippe Pinel, em Botafogo, localizado a poucos metros do antigo Hospital Nacional de Alienados, na Praia Vermelha, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que Moreira dirigiu no início do século XX.

A obra oferece uma oportunidade para relembrar a história do médico, que revolucionou a psiquiatria brasileira e ganhou notoriedade na comunidade científica internacional.

Especialmente virtuoso

Há exatos 100 anos, o físico alemão Albert Einstein (1879-1955) visitou o Brasil. No Rio de Janeiro, conheceu, entre outras instituições científicas, o Hospital Nacional dos Alienados. Lá, foi recebido pelo então diretor, o psiquiatra Juliano Moreira.

“Como um bom baiano, Juliano Moreira ofereceu vatapá com pimenta ao ilustre visitante”, brinca a historiadora Ynaê Lopes dos Santos, mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). Em seus diários, o Nobel de Física descreveu o anfitrião como uma “pessoa especialmente virtuosa”.

De família pobre, Juliano Moreira ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia aos 14 anos. Cinco anos depois, saiu de lá com o diploma na mão – foi um dos primeiros médicos negros do Brasil. Aos 24, tornou-se professor da faculdade onde se formou. Detalhe: foi aprovado em primeiro lugar.

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Notoriedade internacional

Como médico, representou o Brasil em diversas capitais da Europa, como Lisboa, Londres e Bruxelas. Outros lugares conheceu como paciente. Diagnosticado com tuberculose, conheceu a futura mulher, a enfermeira alemã Augusta Peick, em um sanatório no Cairo.

Pelo mundo afora, presidiu incontáveis congressos – não só de saúde mental, mas de outras especialidades. Certa ocasião, chegou a ser barrado na porta de um deles por um recepcionista mal-informado. “Se eu não puder entrar, não tem congresso!”, limitou-se a dizer. Minutos depois, teve sua entrada autorizada.

“Naquela época, era impensável que um médico negro pudesse presidir um congresso de medicina”, observa o psiquiatra Fernando Ramos, presidente do Centro de Estudos do Instituto Municipal Philippe Pinel (IMPP) e coordenador geral da Escola de Saúde Mental do Rio de Janeiro (ESAM).

“Juliano Moreira era a exceção da exceção. Era um respeitado intelectual poliglota”, define Ramos, que prepara uma biografia sobre o psiquiatra em parceria com Ynaê Lopes dos Santos. Ganhou o apelido de “terapeuta do afeto”, dado por Afrânio Peixoto (1876-1947), médico e escritor.

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Medidas inovadoras

Entre outras façanhas, o diretor do Hospital Nacional dos Alienados modernizou a psiquiatria brasileira ao adotar uma série de medidas para lá de revolucionárias, como abolir o uso de camisas de força, retirar as grades das janelas dos sanatórios e separar pacientes adultos de crianças.

Um de seus pacientes ilustres foi o escritor Lima Barreto. O autor de O triste fim de Policarpo Quaresma (clique para comprar*) esteve internado lá em duas ocasiões: em 1914, por 56 dias, e entre 1919 e 1920, por 38 dias. O cemitério dos vivos* descreve sua segunda passagem pelo hospital.

Racismo científico

Além de defender o tratamento humanizado, Juliano Moreira combateu o racismo científico. À época, médicos de renome como Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906), professor de Moreira na Faculdade de Medicina da Bahia, associavam a mistura de raças a transtornos mentais.

“Inspirado nas ideias do psiquiatra italiano Cesare Lombroso (1835-1909), Nina Rodrigues se transformou em um expoente do racismo científico”, explica a historiadora Ynaê Lopes dos Santos. “Ele defendia que a mestiçagem era a chave para compreender a predisposição de indivíduos mestiços para o crime e a loucura”.

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Certa ocasião, Juliano Moreira e Nina Rodrigues travaram uma acalorada discussão por causa de um paciente. Enquanto Nina Rodrigues declarava que o rapaz era esquizofrênico porque sua mãe era brasileira e seu pai, italiano, Moreira argumentava que o diagnóstico de seu ex-professor universitário era “superficial”.

Dias depois, Juliano Moreira pegou o primeiro navio com destino à Itália. Queria provar que a tese do colega estava equivocada. Na terra natal do pai do rapaz, descobriu casos de esquizofrenia. Curiosamente, não havia traços de miscigenação na família paterna do paciente.

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Ícones negros nos muros da cidade

Desde 2018, o projeto Negro Muro já homenageou mais de 60 personalidades brasileiras.

“Volta e meia, a gente é cobrado porque fulano ou sicrano ainda não foram pintados”, diverte-se o produtor cultural Pedro Rajão, um dos criadores da iniciativa. ‘Quantos personagens negros a gente não tem para homenagear, não é mesmo? Somos o maior país negro fora da África”.

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Os três primeiros foram o escritor Lima Barreto (1881-1922), a cantora Clementina de Jesus (1901-1987) e o ativista Abdias do Nascimento (1914-2011).

Também ganharam homenagens o marinheiro João Cândido (1880-1969), o compositor Cartola (1908-1980), a cantora Elza Soares (1930-2022), o humorista Mussum (1941-1994) e a socióloga Marielle Franco (1979-2018).

A próxima da lista é a escritora Conceição Evaristo, de 78 anos. Seu mural, de 30 metros de altura por 20 de largura, ficará no Largo de São Francisco, no Centro do Rio. Em seguida, virão o cantor e compositor Heitor dos Prazeres (1898-1966) e o escultor Mestre Valentim (1745-1813).

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