Viroses no litoral paulista: alerta para a saúde pública e o meio ambiente
Longe de ser um episódio isolado, surto é lembrete de que precisamos melhorar o saneamento básico

O verão de 2025 trouxe mais do que sol e turistas para o litoral paulista. Um surto de viroses, causado principalmente pelo norovírus, tem exposto a fragilidade da infraestrutura de saneamento em regiões costeiras, incluindo praias renomadas como Maresias, no Litoral Norte.
Este cenário não é apenas um problema ambiental, mas uma questão urgente de saúde pública.
Contexto do surto
Praias como Maresias enfrentaram um aumento significativo de casos de gastroenterite, uma infecção altamente transmissível que provoca febre, vômitos e diarreia. Esses surtos são agravados pela alta densidade populacional no verão e pela infraestrutura precária de saneamento básico.
A falta de sistemas adequados de tratamento de esgoto, especialmente em áreas que dependem de fossas sépticas, resulta em contaminação de rios e mares.
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Dados que preocupam
Em 2024, análises realizadas pela CETESB detectaram níveis alarmantes de coliformes fecais em praias como Maresias, Itaguá e São Francisco. Estas praias foram classificadas como impróprias para banho por semanas consecutivas, afetando tanto a saúde dos visitantes quanto o ecossistema marinho.
Além dos impactos diretos na saúde humana, a poluição compromete a biodiversidade aquática e prejudica o turismo sustentável, uma das principais fontes de renda da região.
A questão que fica é: por que o saneamento não acompanha o crescimento? Mesmo praias sofisticadas, como Maresias, sofrem com redes de saneamento insuficientes para suportar o aumento de turistas.
As soluções existentes, como o trabalho da SABESP em áreas urbanizadas, são insuficientes para atender à demanda das regiões costeiras, deixando uma lacuna significativa na infraestrutura de saneamento.
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Propostas para mitigar a crise
Para enfrentar a crise de saúde e saneamento no litoral paulista, é essencial adotar estratégias integradas que combinem investimentos públicos e iniciativas privadas. Algumas medidas urgentes incluem:
- Planejamento urbano sustentável: Expandir e modernizar as redes de saneamento, priorizando áreas de maior vulnerabilidade.
- Educação ambiental: Promover campanhas de conscientização que incentivem práticas sustentáveis entre moradores e turistas.
- Fortalecimento da fiscalização: Combater despejos clandestinos de esgoto e ocupações irregulares.
- Turismo responsável: Implementar ações que respeitem a capacidade ambiental das regiões costeiras e promovam práticas de preservação.
A importância da educação e da prevenção
Campanhas educativas podem desempenhar um papel central na redução dos surtos de doenças. Atitudes simples, como a manutenção de sistemas sépticos e o descarte correto de resíduos, ajudam a minimizar os impactos na saúde pública e no meio ambiente.
Concluindo, o surto de viroses no litoral paulista é um alerta urgente para a necessidade de repensarmos nossas prioridades em saneamento e saúde pública. As praias são um patrimônio natural que exige preservação e investimento.
Resolver essa crise requer comprometimento coletivo, políticas públicas eficazes e uma visão de longo prazo, que alie desenvolvimento econômico e sustentabilidade.
*Por Silvana Kasinski, médica, pesquisadora da Unifesp e integrante do Instituto Paulista de Resistência aos Antimicrobianos