Hulk Hogan, provavelmente o maior ícone da luta-livre americana, morreu aos 71 anos de um ataque cardíaco nesta quinta-feira, 24 de junho.O universo do wrestling perde uma de suas lendas absolutas, uma figura não isenta de polêmicas que ajudou a projetar o esporte de entretenimento globalmente. A vida de Hogan também expõe uma história de uso e abuso de anabolizantes e outras drogas dentro e fora do mundo dos ringues.O integrante do hall da fama da WWE, a principal empresa de wrestling do planeta, decolou em sua carreira nos anos 1980, protagonizando lutas clássicas com outros gigantes e duelos que bebiam inclusive do espírito nacionalista americano. Sua música de entrada, Real American, traduz boa parte desse imaginário e engajamento em torno do lutador.https://www.youtube.com/watch?v=9lZDgGr1PO0O homenzarrão musculoso de cabelos escassos e loiros, bigode robusto, olhos claros e bandana não só se tornou o astro número 1 do wrestling como estrelou filmes como Rocky III ao lado de Sylvester Stallone. Marcou época e geração, consagrando-se como um mito da luta-livre ainda em vida.Sua trajetória, contudo, não foi isenta de controvérsias. Foi acusado de racista, esteve envolvido em tramas que chegaram aos tribunais e criticado por apoiar Donald Trump. Um dos capítulos polêmicos de sua biografia foi o uso de drogas anabolizantes. Depois de anos de imbróglio, o criador da Hulkamania admitiu o abuso de esteroides.Mas ele não estava sozinho nessa. Hogan vem de uma cultura de lutadores e empresários que apostaram alto nessas drogas em prol do físico e do desempenho. O fenômeno abrandou dos anos 2000 em diante, inclusive na esteira de estudos apontando o tamanho dos riscos à saúde.Anos de esteroides contribuíram para a morte de dezenas de lutadores de wrestling, muitos deles de infarto e outras complicações cardíacas. Hogan, infelizmente, não deve ter sido uma exceção.+ Leia também: A febre (e os riscos) dos hormôniosBomba para o peitoNão é de hoje que os cardiologistas alertam para o perigo dos anabolizantes esteroides, que emulam e potencializam os efeitos da testosterona no organismo, para o coração.Recentemente, uma análise robusta conduzida por pesquisadores dinamarqueses, baseada em dados populacionais, constatou que a droga triplica o risco de infarto entre homens, além de estar associada a maior propensão a insuficiência cardíaca, arritmias e formação de trombos nas veias.O estudo, publicado no periódico Circulation, comparou o histórico de saúde de 1 189 usuários de esteroides com os de 60 mil cidadãos que nunca recorreram a essas substâncias. Feitas as contas, o estrago foi grande:3 vezes mais risco de infarto3 vezes mais chances de ter de fazer uma angioplastia ou cirurgia cardíaca2,4 vezes maior probabilidade de uma trombose venosa e embolia pulmonar2,2 vezes maior propensão a arritmias9 vezes mais risco de cardiomiopatia3,6 vezes maior possibilidade de insuficiência cardíacaÉ, sem sombra de dúvida, uma bomba para o sistema circulatório.Desde 2023, a prescrição de esteroides para fins estéticos e esportivos é proibida pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) no Brasil. Ainda assim, sabemos que o apelo e o mercado ancorados nessas drogas continuam atraindo homens e mulheres, agora vendidas com novas roupagens, como implantes hormonais, modulação hormonal, etc.O problema é que, cedo ou tarde, a conta para os vasos sanguíneos ou outros órgãos (rins, fígado...) chega.No universo do wrestling, muitos atletas passaram a rejeitar a pressão pelos anabolizantes, inclusive chamando a si mesmos de "natural" ou "drug free". No entanto, são inúmeros os casos, principalmente dessa geração que fez sucesso nos anos 1980, a sofrerem reveses à saúde ou mortes precoces decorrentes do uso.A história do “imortal” Hulk Hogan e de outros ídolos da luta-livre nos alerta para as ameaças do atalho químico para o corpo perfeito e a alta performance.A despeito disso, seu emocionante legado persistirá entre os fãs e lutadores.https://youtu.be/ccgvw7Nsjr0?si=SgUj43Ylu9DdKuHW