Super Promoção: 3 meses por 1,99/mês

Filho superdotado? Conheça sinais (e impactos) das altas habilidades

Por trás do adjetivo, se esconde uma gama de condições que conferem habilidades em alguns domínios, mas também trazem desafios

Por Daniella Grinbergas (texto), Estúdio coral (design) e Estúdio Tigre (ilustração)
13 jan 2025, 09h46
superdotados
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 5% da população tenha altas habilidades em algumas áreas (Deagreez/Getty Images; Ilustrações: Estúdio Tigre/Veja Saúde)
Continua após publicidade

“Desde pequena, minha filha sempre apresentou um comportamento difícil. Ficava irritada facilmente, demorava para sair das crises, tinha problemas na escola.” O retrato da jornalista Camila Gomes sobre a primogênita, hoje com 6 anos, quebra a versão romantizada do que seria uma criança superdotada.

Pois esqueça o mito do pequeno gênio com QI nas alturas que é o aluno número 1 da sala. Sim, ele pode ser extremamente inteligente, mas isso não significa que não enfrentará, junto à família, uma série de percalços em seu desenvolvimento.

Grande parte dessas crianças é incompreendida, se sente desajustada em relação ao ambiente ao redor e pode apresentar problemas se não receber a atenção necessária”, diz a neuropsicopedagoga Olzeni Ribeiro, que se especializou nesse campo de atuação e já atendeu mais de 10 mil famílias.

+ Leia também: Demasiado humano: vida com altas habilidades tem seus percalços

O que é ser superdotado?

Desfazer as fantasias e o desconhecimento que cercam o tema tornou-se um imperativo ainda mais forte com a popularidade que a superdotação ganhou nas redes sociais. Faz sentido: a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que 5% da população global se enquadre nessas características.

Fazendo as contas e considerando os 47 milhões de brasileirinhos na educação básica, são mais de 2 milhões de superdotados. No último Censo Escolar, contudo, foram identificados pouco mais de 26 mil deles.

Só que a falta de um acompanhamento adequado — em casa e na escola — é o que dá vazão às dificuldades comportamentais que os pequenos e seus familiares costumam encarar. 

À luz do conhecimento atual, a superdotação não deve ser vista nem como um trunfo nem como doença. Trata-se de uma neurodivergência, ou seja, o cérebro trabalha de forma diferente do que se convencionou tomar por padrão.

Continua após a publicidade

“Um superdotado já nasce três anos à frente em relação ao desenvolvimento do bebê considerado típico”, afirma Olzeni. Sendo assim, os marcos clássicos da infância não são alcançados por eles nos momentos esperados: muitos começam a andar ou falar mais cedo e a fazer contas ou ler bem antes da idade prevista.

Porém, ocorre uma assincronia entre a evolução cognitiva, tão acelerada, e a motora, a social e a emocional, que muitas vezes não acompanham o ritmo.

+ Leia também: Desvendando verdadeiros talentos por trás do autismo

Equilíbrio para a saúde mental

“Quando não trabalhamos ou não alimentamos esse primeiro aspecto corretamente, todos os demais podem entrar em colapso”, alerta a neuropsicopedagoga.  

É assim que se multiplicam os desafios na lida diária: crianças com acessos de raiva, fobia a escola, ataques de ansiedade, brigas e outros perrengues deixam a família e os educadores de cabelo em pé. Os momentos de explosão estão entre os relatos mais frequentes.

Para explicá-los, Olzeni recorre a uma metáfora. Imagine uma estrada que tem diversas bifurcações e saídas que se conectam com outras vias rápidas. Quando há um fluxo coordenado, os carros circulam em altíssima velocidade, explorando toda a sua potência.

Continua após a publicidade

O problema se dá quando algum engarrafamento trava a circulação. No cérebro de alto rendimento, isso acontece quando faltam estímulos, vias para circular e processar as novas informações.

“Se não há uma pista para a criança imprimir sua potência, o motor quebra”, compara a expert. Na prática, os sintomas disso vão dos dias de fúria às crises de pânico, passando pela sensação de um tédio sem fim.

Então, o que fazer para o trânsito nervoso fluir melhor? “Como essa garotada tem uma necessidade de aprendizados constantes, é importante oferecer o máximo de recursos para supri-la”, aconselha a neuropsicóloga Erlaine Chaves, que se especializou na área após vivenciar essa realidade com a própria filha.

+ Leia também: Sou mãe de uma filha neurodivergente – e te convido a ser melhor

superdotados
Como diferenciar autismo, TDAH e altas habilidades (Deagreez/Getty Images; Ilustrações: Estúdio Tigre/Veja Saúde)

A busca por orientações

O ponto, e essa ainda é uma lacuna no país, é que muitos jovens não recebem o “diagnóstico”, deixando os pais perdidos. Camila sabe bem do que falamos: “Além das explosões, minha filha andava na ponta dos pés e tinha muita sensibilidade a sons e alguns tecidos, o que me levou a pensar que ela estivesse dentro do espectro autista”.

Continua após a publicidade

Até que uma visita a especialistas matou a charada: a menina tem uma capacidade cognitiva muito acima da idade, e o emocional não acompanha. Foi uma virada de chave na vida da família.

Com acompanhamento profissional, Camila entendeu que seria preciso modificar o ambiente para oferecer à filha os estímulos de que ela tanto precisa — algo para o qual a própria escola pôde colaborar

Relato parecido é o da neuropsicóloga Erlaine Chaves. “Quando minha filha nasceu, eu era especialista em autismo e comecei a verificar traços do espectro nela. Mas, quando fui estudar a superdotação, logo enxerguei a menina ali”, conta.

Aos 4 anos, a pequena já sabia ler, fazer cálculos matemáticos e mostrava uma grande sede de aprendizado. O teste de QI e as diversas avaliações que atestaram a superdotação dispararam um sinal para a mãe, que inclusive se enxergou naquele mesmo “diagnóstico”. 

“Eu também fui uma criança diferente, de poucos amigos, com interesses que não eram os da maioria. Sempre me senti inadequada, angustiada e desencaixada”, recorda. “Ao mesmo tempo, ia bem nas provas, era comprometida e criativa. Tudo fez sentido para mim.”

Continua após a publicidade

Por causa dessas descobertas, Erlaine mergulhou no assunto e hoje trabalha com avaliação e intervenção neuropsicológica, orientação dos responsáveis e psicoterapia para crianças e adolescentes, com foco em superdotados, no interior paulista.

+ Leia também: Como lidar com a ansiedade em crianças?

“Senti todos os desafios na pele e atuo hoje para que minha filha e meus pacientes tenham uma trajetória diferente, sendo acolhidos e tendo seu potencial desenvolvido”, diz.

Aí que está: apesar da efervescência do tema na internet, a identificação da superdotação é algo que deve ser feito apenas por profissionais capacitados — não, um teste virtual não bate nenhum martelo, vale adiantar.

Existem, no entanto, pistas que podem despertar a necessidade de procurar esse apoio. 

Atenção ao emocional

Como o processamento de informações no cérebro se dá de forma mais rápida, o aprendizado dos superdotados segue um ritmo frenético. De forma geral, eles aprendem a ler e a fazer contas com facilidade, mas parecem ser desatentos quando o ambiente não apresenta tanto estímulo.

Continua após a publicidade

Também costumam ter problemas de sono devido a agitação, boa memória, hiperfoco quando estão envolvidos em algo que lhes interessa, maior sensibilidade sensorial e resistência à rotina e a algumas normas — daí o estresse na escola.

Ao contrário do que muita gente pensa, eles não se sentem superiores. Por vezes, se julgam inclusive insuficientes ou diferentes demais.

“Seu caminho tem que ser bem apoiado porque há grandes chances de caírem em um perfeccionismo disfuncional e se sentirem não pertencentes e inseguros”, observa Erlaine.

Se essas características não são trabalhadas, há risco de a ansiedade bater à porta. “É preciso sensibilizá-los de que o erro faz parte do aprendizado”, exemplifica a psicóloga.

O estado emocional, claro, também tem suas peculiaridades. Boa parte dos superdotados é empática, tem senso de justiça aflorado, nutre questionamentos existenciais e reflexões sobre o mundo. Nem sempre, porém, consegue digerir e expressar as tensões à flor da pele.

“Suas emoções são mais intensas, mas a consciência e o impacto delas também são maiores”, nota o psicólogo gaúcho Jean Alessandro, que criou e coordena uma pós-graduação na área.

+ Leia também: Os diferentes olhares sobre o autismo

Como fechar um diagnóstico

Agora, sem dúvida, um dos maiores desafios das crianças, dos pais e até dos profissionais de saúde é a confusão entre os diagnósticos. 

“Há uma linha tênue entre a superdotação e transtornos como déficit de atenção e hiperatividade e autismo”, afirma Erlaine. “É preciso entender o porquê de cada comportamento. No TDAH, o indivíduo é agitado por causa da hiperatividade. Na superdotação, ele se agita por se sentir desestimulado”, ilustra.

Tudo isso só reforça a importância de uma avaliação especializada e minuciosa. Até porque essas condições não são excludentes, ou seja, a criança pode apresentar mais de uma delas, entrando numa categoria que os pesquisadores chamam de dupla excepcionalidade. De novo: só o faro apurado de quem se dedica à causa para iluminar a rota a seguir. 

Ok, mas você pode se perguntar: e o famoso QI, o quoeficiente de inteligência, não seria uma ferramenta capaz de dizer se a criança ou o adolescente são superdotados? Veja, esse teste mensura a capacidade cognitiva e a compara com a média populacional.

A Mensa, principal organização internacional dedicada à questão de altos QIs, trabalha com a nota ou percentil 98 nas avaliações. O que isso significa? Que a pessoa é considerada superdotada se tiver um desempenho superior a 98% dos indivíduos em sua faixa etária.

+ Leia também: O tempo da criança: conheça os marcos do desenvolvimento infantil

No entanto, o resultado do teste não deve ser utilizado de forma isolada como prova ou diagnóstico.

“Ele funciona como uma foto da capacidade mental da pessoa naquele momento. Mas sabemos que a condição neural não pode ser resumida a um resultado numérico, é preciso recorrer a um meio de checagem mais profundo”, esclarece Alessandro.

O psicólogo ressalta que a avaliação completa leva em conta o histórico da criança, uma anamnese junto aos pais, marcos do desenvolvimento infantil, conversas com a escola, além de testes complementares, que analisam criatividade, memória e habilidades socioemocionais.

Em resumo, não basta a foto, é essencial ter um filme do que está rolando. 

Feito o “diagnóstico”, está na lei: o superdotado faz parte do grupo de educação especial e pode se beneficiar de uma orientação individualizada.

superdotados-quizz
Teste: devo desconfiar de superdotação? (Deagreez/Getty Images; Ilustrações: Estúdio Tigre/Veja Saúde)

Adaptação escolar

A escola deve garantir a inclusão dessas crianças, direcionando os estudos e preparando o ambiente de acordo com as necessidades delas. Se isso não acontece, os sentimentos mais comuns em sala de aula são tédio, desmotivação e raiva.

Basta imaginar um aluno recebendo informações básicas sobre um domínio sobre o qual ele já está careca de saber. Frustrante, no mínimo, não? Por isso, é preciso alinhar as expectativas e prezar a flexibilidade.

“As escolas devem entender que o aluno funciona de forma diferente, que o processo de atenção e aprendizado e alguns comportamentos divergem da maioria”, aponta Olzeni. 

E nem todos os superdotados são iguais. “É necessária uma avaliação individual para entender em que lugar do espectro ele se encontra”, explica a especialista. Isso ajudará a decidir, entre outras coisas, se faz sentido ou não o estudante “pular” de série, com o devido suporte, claro.

O fato é que, com a maior circulação do assunto na rede, mais crianças estão sendo levadas aos consultórios e, eventualmente, “diagnosticadas”. “De dez avaliações que faço hoje, eu diria que seis já vêm com a hipótese de superdotação”, estima Erlaine.

Quem vai dizer se ela se confirma ou não é o profissional habilitado e munido de ciência. Eis o caminho para dar o devido apoio a esses jovens — e às famílias — que vivem desafios e talentos invisíveis. 

Altas habilidades?

A expressão é usada por aí como sinônimo de superdotação, e o fato é que a terminologia ainda não está bem resolvida no Brasil. A grande discussão se deve ao conceito de que “habilidades” podem ser treinadas e alcançadas com algum esforço.

“E não há dúvida de que a superdotação é uma condição inata e genética, caracterizada por uma modificação na fisiologia e nas funções cerebrais”, explica Olzeni Ribeiro.

Na realidade, as diferenças se estendem até ao metabolismo, que costuma ser mais acelerado. Não à toa, a alimentação dos superdotados também tende a ser fora do padrão.

Compartilhe essa matéria via:
Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

ECONOMIZE ATÉ 88% OFF

Super Promoção! Digital Completo

Apenas R$ 1,99/mês nos 3 primeiros meses
Garanta acesso ilimitado aos sites, apps, edições e acervo de todas as marcas Abril
De: R$ 16,90/mês
Por 1,99/mês (16,90 a partir do 4º mês)

Impressa + Digital

Receba Veja Saúde impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*
a partir de 14,90/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app. Pagamento único trimestral de R$5,97, a partir do quarto mês, R$ 16,90/mês. Oferta exclusiva para assinatura trimestral no Plano Digital Promocional.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.