Qual a melhor forma de conscientização sobre HIV e outras ISTs?
Às vésperas do carnaval, pesquisa investiga quais tipos de estratégias funcionam melhor no contexto das campanhas de saúde

Com a proximidade do Carnaval, o Ministério da Saúde costuma colocar no ar ações que enfatizam a importância da prevenção do HIV e de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).
A campanha deste ano da pasta, cujo mote ainda não foi revelado, deve ir ao ar nos próximos dias. Mas afinal, o quão efetivas são essas iniciativas?
Um levantamento realizado pela Minds & Hearts, empresa do grupo de pesquisa HSR, investigou a percepção pública sobre a prevenção ao HIV no contexto do Carnaval. A análise consultou mais de 670 pessoas, de diferentes faixas etárias, e de todas as regiões do país.
Quando questionados, 95% dos entrevistados afirmaram acreditar que a festa aumenta os riscos de exposição ao vírus. Contudo, menos da metade dos participantes (45%) chegou a presenciar medidas educativas durante a folia. Ao todo, apenas 46% dos participantes consideram que o tema é suficientemente abordado em campanhas.
O médico infectologista Rico Vasconcelos, pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), avalia que a qualidade das ações tenha oscilado ao longo dos últimos anos.
“Há períodos em que temos campanhas mais bem feitas e inteligentes. Consigo me lembrar de algumas super espertas, que foram além do incentivo ao uso de camisinha, tentando apontar como a homofobia pode impactar na prevenção e na incidência de HIV, por exemplo. E houve momentos em que tivemos projetos menos elaborados ou ruins”, pontua Vasconcelos.
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Desafios
As campanhas de conscientização são estratégias fundamentais para a saúde pública. Contudo, a comunicação nessa área não é uma tarefa tão simples. Mirar a população de maneira certeira, de modo a promover mudanças de comportamento, é um baita desafio.
Como bons exemplos, podemos citar as propagandas explicando como eliminar os criadouros do mosquito Aedes aegypti, transmissor de dengue, Zika e chikungunya. Ou a criação do personagem Zé Gotinha, que teve papel fundamental na conscientização popular sobre a importância das vacinas.
No passado, contávamos com apoios como folhetos, rádio e TV. Com o avanço tecnológico, o surgimento da internet e a popularização das redes sociais, estão disponíveis recursos ainda mais poderosos para atingir o público. Mas nem tudo são flores…
As diversas possibilidades de comunicação ainda esbarram em um problema pontual: a linguagem. Então, como aproveitar ao máximo os inúmeros artifícios virtuais para engajar a população e promover cuidados de saúde?
Bom, o levantamento também buscou saber quais tipos de estratégias funcionam melhor nesse contexto. Os entrevistados indicaram uma preferência por ações interativas que abordem o tema de forma clara e direta, presença ativa nas redes sociais e distribuição de preservativos.
“É inegável que ter o insumo disponível é algo muito útil. Ter a camisinha na mão porque está sendo distribuída ali é fundamental. A pessoa pega, põe no bolso e depois ela pensa no que vai fazer”, diz o médico.
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Materiais audiovisuais foram apontados como eficazes para disseminar informações essenciais. Além disso, sugeriu-se que as iniciativas incentivem a troca de informações e opiniões como rodas de conversa sobre o tema.
O infectologista Rico Vasconcelos defende a utilização de métodos de marketing digital para a amplificação das campanhas.
“A mídia social é uma das janelas através das quais as pessoas olham para o mundo. Da mesma maneira que o marketing digital pretende vender cerveja, por exemplo, é possível emplacar uma ideia, transmitindo o conceito de prevenção, testagem e tratamento de ISTs, usando os mesmos métodos”, enfatiza.
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Vasconcelos sugere ainda a realização de ações que atinjam grandes audiências, como inserções em programas de televisão, como o Big Brother Brasil (BBB 25), e durante os desfiles de escolas de samba.
“Seria um jeito de fazer as campanhas ganharem de novo o brilho que elas tinham, quando eram inteligentes e faziam a gente pensar. Não pode ser apenas aquele velho slogan ‘no carnaval, use camisinha’, porque isso não tem impacto algum”, conclui.