Novos remédios para diabetes e obesidade miram outras doenças
Medicamentos como semaglutida e tirzepatida têm potencial para tratar outras condições prevalentes

Se por um lado o diabetes semeia inúmeros prejuízos pelo corpo quando mal controlado, por outro um de seus principais tratamentos está expandindo seus alvos, trazendo a perspectiva de domar outras doenças que podem ter (ou não) um elo com o desequilíbrio do açúcar no sangue.
Estamos falando das medicações que simulam hormônios intestinais para baixar a glicemia e o peso, os agonistas de GLP-1, que, depois de mostrar seu valor para o diabetes tipo 2 e a obesidade, candidatam-se agora a melhorar uma série de enfermidades crônicas — de danos cardíacos e renais a apneia do sono e gordura no fígado.
Os dois principais representantes da classe, aplicados semanalmente com uma caneta, são a semaglutida, da Novo Nordisk — vendida como Ozempic na formulação para diabetes e Wegovy para obesidade —, e a tirzepatida, da Eli Lilly, de nome comercial Mounjaro.
A primeira já está disponível no país nas duas versões, enquanto a segunda, liberada por aqui só para o diabetes por ora, deve chegar às farmácias neste ano.
“São medicamentos que têm uma grande potência no tratamento do diabetes e da obesidade e demonstram benefícios para condições crônicas que costumam estar associadas a eles”, afirma o endocrinologista André Vianna, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes no Paraná.
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Do coração ao cérebro: quem ganha com as terapias modernas
A semaglutida e a tirzepatida protagonizam uma série de estudos clínicos pelo mundo focados em enfermidades que vão além do diabetes e da obesidade.
Fora os efeitos positivos no controle glicêmico e na perda de peso, avaliam-se outros mecanismos de ação que ensejam as novas indicações à vista
Apneia obstrutiva do sono
Pequenas paradas respiratórias durante o repouso são causadas por vários fatores, como o excesso de peso. Ao ajudar no emagrecimento, a tirzepatida também reduz as interrupções no fluxo de ar.
Por isso, nos Estados Unidos, foi aprovada para o tratamento da condição.
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Dependência de álcool
Testes com animais e humanos sugerem que os agonistas do receptor de GLP-1 podem, no futuro, fazer parte do tratamento do alcoolismo.
O efeito de saciedade que eles geram seria capaz de mitigar o apetite pelo álcool, somando-se a outras medidas de contenção do vício.
Esteatose hepática
Outra condição bastante associada ao diabetes e à obesidade é o acúmulo de gordura no fígado.
Um estudo realizado com cerca de 800 voluntários mostrou que o uso de semaglutida reduziu a inflamação hepática em 63% dos casos, evitando que a esteatose progredisse para cirrose.
Insuficiência cardíaca
Em uma pesquisa que avaliou 731 pacientes com obesidade e o problema no coração, a tirzepatida diminuiu o risco de agravamento do quadro e de morte mais precoce.
A administração semanal obteve uma redução de 35% na dosagem de proteína C reativa, um indicador de propensão a infarto e AVC.
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Alzheimer
Médicos americanos investigam o potencial neuroprotetor dos agonistas de GLP-1.
Ao compararem o uso da semaglutida com antidiabéticos tradicionais, os especialistas observaram que o primeiro baixa em até 70% o risco de desenvolver a doença de Alzheimer.
Frente a frente
Em termos de emagrecimento, a tirzepatida tem um efeito 47% superior, em média, ao da semaglutida, conclui o primeiro estudo a comparar ambas as medicações. Na análise, o Mounjaro levou a uma perda de peso na casa de 20%, enquanto o Wegovy obteve quase 14%.
Ao todo, 751 voluntários foram acompanhados ao longo de um ano e meio. A diferença nos resultados parece se explicar pelo fato de a tirzepatida ter uma dupla função. Além de emular o GLP-1, como a semaglutida, ela mimetiza outro hormônio intestinal, o GIP.
“Ao ativar dois receptores de hormônios produzidos pelo aparelho gastrointestinal, o remédio amplia sua ação na perda de peso”, esclarece André Vianna. A escolha a cada paciente vai depender de critérios médicos — e da disponibilidade nas drogarias.