Nitazenos: cresce apreensão de opioide mais potente que a morfina no Brasil
Minas Gerais, São Paulo e Santa Catarina já identificaram as substâncias, segundo relatório lançado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP)

O Brasil registra um aumento na apreensão de nitazenos, opioides sintéticos com potência superior à da morfina e do fentanil.
Além da Polícia Federal (PF), Minas Gerais, São Paulo e Santa Catarina já identificaram as substâncias, que começaram a aparecer no mercado mundial de drogas ilícitas por volta de 2019. Entre julho de 2022 e abril de 2023, 133 das 140 amostras de opioides apreendidas em São Paulo continham o produto.
Os dados constam em um relatório lançado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) nesta sexta, 24. A publicação destaca que o país não apresenta uma grande circulação e diversidade de opioides ilícitos, mas observa-se um aumento gradual de nitazenos, o que exige monitoramento constante.
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O que são nitazenos?
Os opioides podem ser obtidos por fontes naturais, como o caso da morfina e codeína, que são extraídas do ópio, mas também são sintetizados em laboratório, pela reação química de compostos distintos.
“Um exemplo de opioide sintético que ganhou destaque recentemente é o fentanil, desenvolvido como analgésico de alta potência, principalmente usado em procedimentos cirúrgicos, que acabou ganhando espaço como droga de abuso por ser muito mais potente que a morfina”, pontua o farmacologista Lucas Gazarini, professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
Os nitazenos também são opioides sintéticos, quimicamente classificados como opioides benzimidazólico, que incluem substâncias como o etonitazeno (o mais conhecido deles), butonitazeno, isotonitazeno, metonitazeno e protonitazeno, entre vários outros.
“Assim como o caso do fentanil, os nitazenos foram desenvolvidos na busca por novos fármacos analgésicos que pudessem ser mais potentes que a morfina. A descoberta e desenvolvimento aconteceu nos meados dos anos 50, por uma indústria farmacêutica, mas nunca chegaram às farmácias pelo alto risco associado ao uso”, acrescenta Gazarini.
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O poder dos nitazenos
E sim, estamos falando de uma droga muito mais poderosa que a morfina e o próprio fentanil. Nesse contexto, potência diz respeito à menor dose necessária de uma substância para gerar algum efeito.
“Opioides mais potentes conseguem causar efeitos significativos com quantidades muito pequenas. Em geral, os efeitos da morfina são usados como comparação: o fentanil é até 100 vezes mais potente que a morfina. Embora alguns nitazenos possam ter capacidade similar aos outros dois compostos, outros podem ser 10 a 20 vezes mais potentes que o fentanil”, afirma.
O farmacologista destaca que os opioides podem resultar em morte por overdose. No caso dos nitazenos, as chances são significativamente maiores, especialmente quando há mistura com outros compostos.
“Eles são vendidos em forma sólida, como pó, e podem ser usados de forma oral, inalado ou injetado. Eles podem ser usados como droga de abuso de forma isolada, mas isso não parece ser muito comum, justamente por serem muito potentes e com risco de morte muito grande mesmo com pequenas doses”, explica Gazarini.
Uma forma comum de consumo é pela adulteração de outras drogas ilícitas e medicamentos com os nitazenos.
“Como a síntese é relativamente simples e até de baixo custo, é comum adicionar quantidades dessas substâncias a outras drogas, como heroína, metanfetamina, cocaína, ketamina, maconha e canabinoides sintéticos”, resume.
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Os efeitos dos nitazenos para o organismo não são completamente esclarecidos. Com base no mecanismo de ação opioide e relatos empíricos após atendimentos em casos de intoxicação, pode-se estimar que os impactos são semelhantes, com as devidas proporções da potência aumentada.
“Em doses menores, eles podem causar coceira, náusea, vômito, sudorese e redução na frequência respiratória. O principal risco é associado justamente à supressão do controle respiratório. Em overdoses, a depressão respiratória pode ser severa, com menor chegada de oxigênio ao sangue, hipóxia de tecidos pela desoxigenação, coma e morte”, alerta Gazarini.
Existem antídotos específicos para opioides, mas é necessário o suporte rápido para evitar a morte. Como qualquer opioide, existe ainda a possibilidade de dependência.
“Pela falta de estudos em humanos e a alta potência desses compostos, é provável que a morte por overdose seja muito mais relevante para a saúde pública que o de desenvolver dependência, já que pequenos deslizes com a dose podem ser fatais”, conclui.
(Com informações da Agência Bori)