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Sorofobia: entenda como a discriminação impacta pessoas que vivem com HIV

O fenômeno é complexo e se deve, em parte, ao imaginário que grande parte da população ainda tem sobre o HIV

Por Lucas Rocha Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO
7 Maio 2024, 16h05 • Atualizado em 13 Maio 2024, 14h59
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Sorofobia traz prejuízos para a saúde mental de pessoas que vivem com HIV (Foto: Ryoji Iwata/Unsplash)
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  • Ao longo dos mais de 40 anos da epidemia de HIV, a ciência evoluiu significativamente, trazendo consigo novos tratamentos, formas de prevenção inovadoras e mais qualidade de vida para aqueles que vivem com o vírus.

    Contudo, ainda hoje a infecção é vista como um tabu. O diagnóstico, por sua vez, permanece carregado de vieses equivocados, como um pesado fardo de culpa, associação a comportamento irresponsável e até mesmo uma espécie de castigo.

    Por mais que o tratamento antirretroviral tenha alcançado a capacidade de zerar o risco de transmissão por relações sexuais, para muitos, a pessoa que vive com HIV é vista como uma ameaça.

    O fenômeno é complexo e se deve, em parte, ao imaginário que grande parte da população tem sobre o HIV – a partir do início da pandemia, na década de 1980, quando a infecção provocou um grande número de mortes.

    As consequências são nocivas, como preconceito, discriminação, rejeição e estigmatização de quem vive com o vírus. Para a infecção, há um tratamento medicamentoso extremamente eficaz. Para a sorofobia, o problema é mais profundo.

    + Leia também: Virada de jogo: evolução da medicina revoluciona o tratamento do HIV

    Afinal, o que é a sorofobia?

    A sorofobia é uma aversão e uma prática de discriminação contra pessoas que vivem com HIV. Podemos fazer paralelos com a homofobia, que discrimina pessoas LGBTQIA+, ou com o racismo, que no Brasil afeta especialmente a população preta.

    “Além de estigma, automaticamente há uma atribuição a aquela pessoa de diversos valores negativos”, detalha o infectologista Rico Vasconcelos, pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

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    O especialista pontua que ser diagnosticado com vírus ainda é um fator associado a comportamentos inadequados ou irresponsáveis, como o uso de drogas injetáveis ou a uma ideia de promiscuidade no que diz respeito à quantidade de parcerias sexuais.

    “Temos que levar em consideração que o sexo, o principal vetor de infecção do HIV, é um tema que é permanentemente tabu. Por mais que a nossa sociedade tenha avançado e se fale muito do assunto, isso não significa necessariamente que se fale bem. Existem muitos componentes afetivos, culturais e históricos que se entrelaçam”, pontua o psicólogo Maycon Torres, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF).

    O psicólogo avalia que esse tipo de discriminação tem uma série de raízes diferentes que perpassam a dificuldade geral de se discutir sobre sexo.

    “É comum observarmos discursos que acabam associando a infecção a punição. Ou seja, ela é vista como uma forma de castigo por supostamente não se ter tido cuidado, por uma vivência promíscua ou pela ausência de relacionamentos fixos – tudo acaba entrando como um forte julgamento moral”, destaca Torres.

    Um dos reflexos negativos da sorofobia é a rejeição e o isolamento social. Nesse contexto, são comuns relatos de pessoas com HIV abandonadas pelos parceiros após a revelação da sorologia. O afastamento se estende a outros círculos sociais, como família, amigos e trabalho.

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    “O preconceito impacta profundamente a pessoa que vive com HIV, despertando sentimentos como medo, culpa, ansiedade e tristeza e aumentando o risco de transtornos como a depressão”, afirma o infectologista Álvaro Furtado, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) e diretor da Sociedade Paulista de Infectologia (SPI).

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    Diagnóstico de HIV ainda é associado equivocadamente a comportamentos inadequados ou irresponsáveis (Foto: Breno Esaki/Agência Saúde DF/Divulgação)

    Como saber se um comportamento é sorofóbico

    Há pouco mais de dez anos, o criador de conteúdo digital Lucas Raniel recebeu o diagnóstico de HIV. Para ele, os primeiros momentos foram dolorosos e repletos de sentimentos negativos, como culpa e julgamento.

    Além de ter a sorologia revelada para os familiares sem a sua permissão, ele passou a ser alvo de comentários de desconhecidos na cidade onde morava, Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.

    Naquele momento, tomou a decisão de começar a falar abertamente na internet sobre o próprio diagnóstico e sobre questões relacionadas ao HIV. Para isso, criou o canal no Youtube “Falo memo!”, em 2017. Hoje, concentra as publicações no perfil do Instagram.

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    “A partir dessas experiências, que não foram tão boas, me senti na obrigação de pesquisar mais sobre o assunto. Percebi que ter o conhecimento era, de certa forma, uma ferramenta de defesa para quando a sorofobia acontecesse comigo”, pontua.

    + Leia também: HIV: a importância do conceito “Indetectável = Intransmissível”

    Apesar do alcance obtido ao longo dos anos e de lidar bem com a vivência com o vírus, Lucas pondera que ainda é vítima de discriminação.

    “A exposição ao falar sobre o tema publicamente não me protegeu da sorofobia, é algo que acontece até hoje. A internet tem dois lados: um em que as pessoas se solidarizam, entendem sua jornada e mandam mensagens de afeto. E tem aqueles que acham um absurdo, criticam e são sorofóbicos ao ponto de derrubarem o meu perfil”, destaca.

    Assim como episódios de racismo, homofobia ou machismo, o comportamento sorofóbico se apresenta em diversas nuances – de assédio moral a abusos físicos.

    “São inúmeras atitudes. Saber que alguém vive com HIV e questionar os hábitos dessa pessoa é uma delas, por exemplo. Outra é não querer se relacionar por causa disso”, exemplifica Raniel.

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    Lucas Raniel fala na internet sobre o próprio diagnóstico e questões relacionadas ao HIV (Foto: Instagram/Reprodução)

    E o problema perpassa inclusive a linguagem que utilizamos. Vamos tomar como exemplo uma frase que parece inofensiva, mas não é. Após receber um diagnóstico negativo para o HIV, é comum que uma pessoa diga “estou limpo” – como se, antes, estivesse suja. É uma forma de sorofobia – cometida, muitas vezes, sem perceber.

    “Nesse contexto, o que a pessoa está implicitamente dizendo é que quem vive com HIV está sujo, porque fez coisa errada ou o que não devia. Ou seja, que é uma pessoa que não dá para confiar, que não é boa de se conviver. É um exemplo triste e frequente de sorofobia”, diz Vasconcelos.

    Além das consequências para a saúde mental dos indivíduos com HIV, a discriminação tem dimensões amplas para a saúde pública. Um dos efeitos colaterais da sorofobia é o afastamento das pessoas de unidades de saúde, tanto para a busca por testes de diagnóstico como para a realização do tratamento.

    Em resumo, a sorofobia se manifesta como:

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    • Atribuição de valores negativos a um indivíduo apenas pelo diagnóstico de HIV
    • Afastamento de alguém que vive com o vírus com base em sua sorologia
    • Divulgação do diagnóstico alheio sem permissão
    • Recusa em conviver e participar de atividades sociais devido ao vírus
    • Discriminação no local de trabalho ou escola
    • Exigência de exames de HIV para ingresso no trabalho público ou privado
    • Restrição do acesso a locais de convívio como creches, clubes, centros esportivos, eventos culturais e templos
    • Assédio moral
    • Abuso verbal, físico e agressões
    • Recusa ou atraso proposital no atendimento por serviços de saúde públicos ou privados

    Conscientização

    Assim como o enfrentamento do racismo e da homofobia, o combate à discriminação de indivíduos com HIV conta com um longo caminho pela frente. Para os especialistas, a direção está na ampliação do acesso à informação, de modo conscientizar o público de maneira mais efetiva.

    “Campanhas de educação em saúde mostrando que a sorofobia é uma construção discriminatória tão equivocada quanto o racismo e quanto à homofobia devem continuamente veiculadas. Assim como ações que mostrem que uma pessoa que vive com HIV não é suja, perigosa e não tem o risco de transmitir o vírus, desde que esteja fazendo o tratamento”, destaca Vasconcelos. “Só assim para tirar um pouco da imagem negativa que o HIV tem no imaginário popular”, complementa

    Já Furtado enfatiza a importância de expandir o conhecimento do conceito científico “Indetectável = Intransmissível”, ou I = I.

    Na prática, o consenso significa que uma pessoa que vive com HIV em tratamento e com carga viral indetectável há pelo menos seis meses não transmite o vírus através de relações sexuais. A sigla, aliás, foi atualizada para I = 0 – ou seja, indetectável tem risco zero de transmissão para outras pessoas.

    “Precisamos trazer para as campanhas sobre o HIV pessoas absolutamente felizes, aproveitando a vida, sem nenhum estigma no corpo, como é a realidade das pessoas que fazem o diagnóstico em 2024”, diz Furtado.

    Ponto de vista jurídico

    No Brasil, um conjunto de dispositivos jurídicos resguarda direitos de pessoas que vivem com HIV.

    O acesso aos medicamentos antirretrovirais de maneira gratuita, por exemplo, consta na Lei nº 9.313 de 1996. Nesse contexto, o Sistema Único de Saúde (SUS) tem o dever de ofertar o tratamento indicado pelo médico por força da Constituição Federal juntamente com legislação complementar.

    “Caso tenha uma recusa, poderá acionar o Poder Judiciário por meio de um pedido de tutela de urgência, ou liminar. Diferentemente do que as pessoas imaginam, as ações judiciais na área da saúde são céleres, seguras e efetivas. O mesmo ocorre para uma pessoa com plano de saúde. Esta poderá recorrer à justiça se tiver um tratamento negado pelo plano”, afirma a advogada especializada em direito em saúde Claudia Nakano, que atua no escritório Nakano Advogados Associados.

    + Leia também: A lista de vacinas recomendadas para pessoas que vivem com HIV

    O direito ao sigilo da sorologia também consta na legislação brasileira. A lei nº 14.289 proíbe a divulgação de informações que permitam a identificação de pessoas que vivem com HIV. A medida inclui ainda indivíduos com hepatites crônicas, hanseníase ou tuberculose.

    “Não pode haver divulgação por agentes públicos ou privados de informações que permitam a identificação acerca da patologia ou sobre o estado da saúde da pessoa com HIV. Já o sigilo profissional somente poderá ser quebrado em casos determinados por lei, por justa causa ou por autorização expressa da pessoa com o vírus”, detalha Claudia.

    O texto ainda deixa explícito que o atendimento em serviços de saúde deve ser organizado de forma a impedir o conhecimento do público em geral da condição daqueles que convivem com uma dessas doenças.

    Revelar o diagnóstico de outra pessoa sem consentimento é um crime previsto na lei nº 12.984, punível com reclusão de 1 a 4 anos e multa. Diante de um episódio de discriminação, o indivíduo deve buscar uma delegacia próxima, apresentando testemunhas ou provas do ocorrido para a realização de boletim de ocorrência.

    No mundo corporativo, o tema é tratado na portaria 1.249/2010, do Ministério do Trabalho e Emprego que destaca um conjunto de normas.

    O documento enfatiza que nenhum trabalhador pode ser obrigado a realizar o teste de HIV ou revelar seu estado sorológico. Além disso, proíbe a testagem para o vírus em exames médicos por ocasião da admissão, mudança de função, avaliação periódica, retorno, demissão ou outros ligados à relação de emprego.

    O texto pontua ainda que o status não pode ser motivo de qualquer discriminação para a contratação ou manutenção do emprego. “Demitir uma pessoa por causa da sua sorologia é ilegal”, frisa a advogada.

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