Gestrinona: o que é e para que serve esse esteroide anabolizante
Muito usada em implantes hormonais, essa substância derivada da testosterona não tem garantia de eficácia e segurança e pode fazer mal à saúde

Com a popularização do “chip da beleza” e dos implantes hormonais, a gestrinona retorna aos holofotes.
Velha conhecida da ginecologia, é comum encontrar nas redes sociais depoimentos de mulheres que fazem uso e alegam melhora da endometriose, assim como aumento de disposição, energia, e libido. Mas esses efeitos cobram um preço alto da saúde, e o uso do hormônio sintético não é preconizado por nenhuma sociedade médica brasileira.
Entenda tudo o que está por trás da gestrinona.
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O que é a gestrinona?
A gestrinona é um hormônio sintético não natural, ou seja, nada parecido é fabricado naturalmente pelo corpo da mulher.
Ele é um esteroide anabolizante derivado da nandrolona, conhecido como 19- nortestosterona (19-NT), que, por sua vez, deriva da testosterona. Ou seja, é um hormônio artificial com propriedades androgênicas (“masculinizantes”), antiprogestogênicas e antiestrogênicas (barrando a ação dos hormônios femininos estrogênio e progesterona).
Hoje, a gestrinona não possui nenhuma indicação médica e nem aprovação pela Anvisa.
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Para que serve a gestrinona?
Nas redes sociais e em diversos sites, você encontra gente dizendo que a gestrinona é uma “revolução para a saúde da mulher”, que ela tem uma “capacidade de modular receptores hormonais”, que pode “equilibrar o funcionamento de outros hormônios no organismo”, sendo solução para endometriose, miomas, sangramento uterino e até menopausa.
Mas não há comprovação científica de que ela module diversos hormônios (a não ser os que ela age diretamente, estrogênio e progesterona). A maioria das afirmações é pura extrapolação de estudos preliminares ou desinformação pura mesmo.
Essa substância chegou, sim, a ser estudada para tratamento da endometriose por via oral no final dos anos 70 e foi até comercializada na forma de comprimidos até os anos 2000.
Em teoria, ela inibe os efeitos da progesterona endógena e reduz o crescimento e a atividade do tecido endometrial, ajudando a aliviar os sintomas e a atividade inflamatória da doença.
Ela também impactaria o eixo hipotálamo-hipófise-gonadal, reduzindo a secreção do hormônio folículo-estimulante (FSH) e do hormônio luteinizante (LH), assim diminuindo a produção de estrogênio pelos ovários.
O problema são seus efeitos colaterais graves, que fizeram, nos anos 2000, a gestrinona ser refutada para o tratamento da endometriose. Por volta dessa época, ela deixou de ser comercializada no Brasil e o registro expirou. Vale frisar que não existem estudos de segurança e eficácia para o uso de gestrinona via implantes para qualquer questão ginecológica.
“Quando foi desenvolvida, essa substância era usada na forma de comprimidos, não de injeção intramuscular. Quem me garante que aquele implante, só porque teoricamente tem gestrinona, de fato atende ao que se propõe?”, indaga Maria Celeste Wender, presidente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), uma das entidades que se posicionam contra os implantes manipulados.
Atualmente, a gestrinona é muito buscada por ser um anabolizante comum, e pode gerar redução de massa gorda, aumento de massa muscular e de libido, mas nada disso sem riscos à saúde.
Por esse efeito, ela está na lista de substâncias consideradas doping por agências esportivas.
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Quais são os efeitos colaterais da gestrinona?
Existem poucos estudos sérios, então diversos riscos incertos pairam no ar, porém os mais conhecidos são os comuns: grande crescimento de pelos, aumento da oleosidade da pele e de acne, engrossamento da voz e aumento do clitóris.
Também está associado a agressividade, alterações negativas do sono, sobrecarga do fígado, aumento do risco de trombose, problemas cardiovasculares e câncer.
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Implantes de gestrinona são seguros?
Não. A começar que eles nem regulados são. Hoje, implantes de gestrinona são comercializados por farmácias de manipulação graças a uma brecha de legislação da Anvisa, que permite que sejam manipuladas quaisquer substâncias que já tenham tido registro autorizado pela entidade, para qualquer fim almejado pelos médicos, exceto que esse registro tenha sido suspenso ou cassado.
Um documento da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), união de médicos especialistas em hormônios, afirma que o implante de gestrinona não é um tratamento recomendado pela Endocrine Society (Sociedade de Endocrinologia Americana), pela North American Menopause Society (Sociedade Americana de Menopausa – NAMS) e pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO).
Eles alegam que não existem evidências científicas robustas sobre eficácia e segurança dos implantes de gestrinona, que esses implantes não estão de acordo com a padronização de medicamentos hormonais e, por isso, não tem aprovação de uso por diversas agências regulatórias em diferentes países.