Cárie: o que é, quais são as causas e como tratá-la
Ela não é causada por problemas emocionais e nem é contagiosa. Entenda o que realmente é e como tratar essa condição

A cárie é, com certeza, a doença bucal mais comum do mundo. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 2,5 bilhões de pessoas ao redor do globo têm a condição, que afeta pessoas de todas as idades.
Considerada uma doença crônica não transmissível, ela ainda é cercada por diversos mitos e informações falsas. A seguir, explicamos mais sobre o problema e esclarecemos alguns boatos.
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O que é a cárie?
Primeiramente, cárie é o nome da doença, e não de um bichinho. Ela é caracterizada por lesões no dente, que evoluem como buracos e podem levar à perda dental.
Ao contrário do que se ensina para crianças de forma lúdica, a causa da condição não é um micro-organismo externo à boca humana, mas sim um conjunto de bactérias e um desequilíbrio no ambiente. A combinação de restos de alimentos açucarados e má higiene bucal é um prato cheio para o surgimento do problema.
“O acúmulo de bactérias (predominantemente na forma de biofilme, placa bacteriana) e a exposição frequente aos açúcares são os responsáveis pela cárie”, afirma José Carlos Imparato, professor da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (FOUSP).
Ele explica que, para metabolizar os restos de açúcar que ficam entre os dentes, as bactérias bucais liberam uma solução ácida. Esse ácido desmineraliza o esmalte dental, causando a doença e suas lesões características.
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Quais os sintomas da cárie?
Antes das lesões mais profundas, as primeiras manifestações são manchas brancas que surgem sob os dentes.
“Normalmente, se forem dentes anteriores, elas ocorrem próximo à gengiva. Mas, nesse estágio, poucas pessoas percebem o problema e geralmente não há queixas como a dor”, esclarece o também conselheiro do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP).
Quanto maior se torna a lesão, e mais a pessoa vai perdendo o esmalte do dente, ela pode desenvolver sensibilidade por alimentos gelados, por pressão durante a mastigação ou até mesmo ao beber água.
Isso acontece porque a cratera atingiu uma camada mais profunda do dente, próximo ao nervo.
Para facilitar a compreensão, observe a figura abaixo.

Ela demonstra como nosso dente é constituído por três camadas:
- Esmalte: parte branca, mais externa, que reveste e protege o dente, formada por fosfato de cálcio (e considerada a substância mais dura do nosso corpo!);
- Dentina: parte do meio, porosa, responsável pela conexão entre o que ocorre na boca e a polpa dental;
- Polpa: parte mais interna, onde encontram-se os nervos (linhas cinzas na figura) e os vasos sanguíneos (linhas vermelhas e azuis, representando artérias e veias respectivamente).
Quando há cavidade por cárie, rompe-se o esmalte e chega-se à dentina. Em casos graves, a lesão pode atingir a polpa, e existe até o risco de perda dental.
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Como tratar a cárie?
Depende do seu estágio. Se o esmalte ainda não tiver sido totalmente rompido, escovações utilizando pastas com flúor vários vezes ao dia podem promover a remineralização dos dentes.
Mas, quando as bactérias já penetraram o esmalte e provocam danos à estética, dores ou até dificuldades para mastigar com aquele dente, é preciso restauração dentária, comumente conhecida como obturação. Nesses casos, o dentista usa usa brocas para remover o tecido destruído e depois preenche a cavidade para devolver a forma dentária original.
“Antigamente, esse poderia ser um procedimento até traumático para os pacientes, mas a odontologia evoluiu bastante. Hoje, você não precisa remover todo o tecido cariado, o dentista consegue fazer intervenções menos invasivas e restaurações melhores, tornando o procedimento praticamente indolor”, enfatiza o professor da USP.
“Não tenha medo de tratar suas cáries! Apenas isso previne problemas piores”, alerta Imparato.
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Por que as lesões de cárie são pretas?
Na verdade, a lesão em si não é preta, até porque a dentina é branca (tanto que o primeiro sinal clínico são manchas brancas).
Mas, conforme a cratera aumenta e a pessoa segue com uma dieta e higienização ruim, a cavidade sofre pigmentação dos alimentos e acaba ficando com um aspecto escuro, ou até preto mesmo.

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Como prevenir a cárie?
Fazendo o básico bem feito: escovando os dentes com pasta fluoretada no mínimo duas vezes por dia (idealmente, três), usando fio dental diariamente e cuidando da sua dieta, para não exagerar na ingestão de doces.
Lembrando que o creme dental deve conter no mínimo 1.000 ppm de fluoreto, pois ele ajuda a fortalecer o esmalte, mineralizando melhor e deixando-o mais resistente ao ataque das bactérias.
Não caia nas fake news que dizem que pasta (ou água) sem flúor é “melhor ou mais natural”. Isso não procede.
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Cárie pode ser causada por questões emocionais?
Não. É puro boato. Problemas de saúde mental podem levar a uma menor cuidado com a saúde bucal, e isso ocasiona mais problemas, de fato. Mas, diretamente, não há relação.
“A cárie é açúcar e biofilme dependente, não existe outras suposições. Ela não tem relação direta com fatores emocionais, como estresse ou ansiedade que ʽrefletem nos dentesʼ. Isso não existe”, enfatiza o especialista.
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Cárie é contagioso?
Não. Você não vai pegar cárie se conversar com alguém com a condição, ou mesmo se beijar de língua essa pessoa.
Lembrando: o que vai causa o problema são resíduos açucarados entre os dentes e descuido com a higienização.
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Existem condições que predispõe a cárie?
Sim. Questões genéticas e doenças que reduzem a salivação, como diabetes e hipertensão descontroladas, prejudicam a saúde bucal, pois a saliva tem a capacidade de diminuir a acidez na cavidade oral.
Como explicamos no início do texto, são os ácidos liberados pelas bactérias acumuladas na boca que geram as lesões de cárie. A saliva, por sua vez, ajuda a neutralizar o pH bucal e preservar o esmalte dentário.
Se uma doença reduz a saliva, ela acaba contribuindo para uma maior acidez local e a maiores chances de surgir uma cárie.