A importância da inclusão das pacientes no tratamento do câncer de mama metastático
Informação e participação ativa nas decisões contribuem para o maior engajamento no processo

De acordo com o INCA (Instituto Nacional de Câncer), o câncer de mama é a neoplasia mais incidente nas mulheres, com 2,3 milhões de casos novos em todo o mundo. No Brasil, até 2025, estão previstos 74 mil novos casos de câncer de mama por ano1.
“O câncer de mama nasce no órgão, mas, dependendo das suas características, como grau, tamanho e receptores, ele tem um risco de se espalhar pelo corpo através dos canais linfáticos e do sangue. Quando isso acontece, ele recebe o nome de câncer de mama metastático. Na maioria dos casos, quando a mulher vai ao médico e descobre a doença, ela está localizada. Porém, caso algumas células tenham saído daquela área, anos depois poderão aparecer nos ossos, fígado, pulmão ou cérebro, caracterizando a metástase”, explica o oncologista Antônio Carlos Buzaid.
Uma nova perspectiva
Muitas pacientes relatam que, diante do diagnóstico de metástase, acreditam que terão pouco tempo de vida. Foi o caso de Silvia Ferrite, hoje professora aposentada da Universidade Federal da Bahia (UFBA), que descobriu um câncer de mama em 2012, se submeteu à cirurgia, quimioterapia e radioterapia, e, sete anos depois, recebeu o diagnóstico de metástase.
“Lembro que fui à consulta acompanhada do meu marido, acreditando que teria uns dois anos e meio de vida, e que esse restinho de tempo que me sobrava seria fazendo quimioterapia – e eu tinha sofrido demais com essa etapa do tratamento no passado. Mas a minha oncologista foi fantástica. Explicou que havia avanços importantes nessa área, e que eu faria uma terapia-alvo, tomando o medicamento em casa, mesmo. Aconteceu o impossível: saímos da consulta felizes”, ela lembra.
De fato, a realidade tem sido outra. O câncer de mama é o tipo de câncer sobre o qual existe maior quantidade de informações científicas, que têm nos levado a respostas satisfatórias para grande parte das perguntas, conta Buzaid. “Felizmente, muitas das mulheres com câncer localizado, que sem tratamento preventivo estariam destinadas a desenvolver a doença, podem agora ser curadas por tratamentos atualmente disponíveis. Por fim, mesmo nos casos incuráveis, importantes avanços foram feitos nos últimos anos, propiciando mais tempo e melhor qualidade de vida”, diz.
A paciente participa das decisões
Se, por um lado, surgiram novos tratamentos oncológicos, que vêm proporcionando menos efeitos colaterais e mais qualidade de vida e tempo de sobrevida, por outro, há também uma importante mudança na forma como a paciente é inserida nesse contexto.
“Hoje ela é incluída nas decisões relacionadas às condutas terapêuticas. Durante muito tempo a decisão do tratamento ficou nas mãos do oncologista”, explica a oncologista Solange Sanches, vice-líder do Centro de Referência em Tumores de Mama no A.C.Camargo Cancer Center. “Mas, agora, passamos a incluir a paciente nessa discussão, pois ela tem que estar munida de todas as informações necessárias para entender a doença, o prognóstico, as opções de tratamentos indicadas para o seu caso, se são curativos ou paliativos, quais resultados e efeitos colaterais podem ocorrer e contextualizar todos esses aspectos dentro da sua vida”.
Ela exemplifica: “Podemos ter dois tipos de tratamentos, que apresentem eficácias semelhantes, porém dão efeitos colaterais distintos. É preciso discutir com a paciente qual alternativa faz mais sentido para ela. Pode acontecer, inclusive, de um tratamento oferecer um tempo de sobrevida um pouco menor, mas ser menos tóxico e dar mais qualidade de vida. Cabe a essa mulher decidir o que é mais importante para si”.
No caso de Silvia, sua oncologista apresentou três opções de terapias-alvo que seriam suficientes para controlar a sua doença. “Ela me forneceu informações a respeito dos resultados de pesquisas científicas e dos efeitos colaterais, juntas entendemos de que forma eles me impactariam e escolhemos aquela que potencialmente me daria mais tempo de controle da doença, com qualidade de vida”.
Informação é vida
Silvia conta que aqueles dois anos e meio que ela imaginava ter pela frente, quando recebeu o diagnóstico de metástase, já se transformaram em cinco, e com qualidade de vida. “É muito importante para nós, pacientes, conhecermos a doença e nossa própria condição de saúde para sermos ativas e responsáveis e fazermos as melhores escolhas ao longo do tratamento. É possível também buscar pesquisas clínicas e questionar o médico se podemos fazer parte desses estudos”.
E os benefícios dessa participação ativa são muitos. Solange Sanches explica que quando a paciente está bem informada e recebe apoio físico e emocional, ela pode participar das decisões, entender cada fase do processo e assumir o controle sobre a sua vida, e esse é um aspecto fundamental para a adesão ao tratamento.
Tratamentos de última geração
Hoje, em função das novas tecnologias, é possível dar “nome e sobrenome” ao câncer, ou seja, identificar, de forma precisa e detalhada, o tipo de tumor e suas características genômicas e moleculares específicas. A partir dessas informações o oncologista consegue selecionar com maior precisão os tratamentos mais eficazes e direcionados para aquele tipo específico de câncer de mama, como Luminal, Triplo-negativo ou HER-2 positivo.
Nos casos de metástase, não se fala, em geral, em cura, mas sim em controle, já que os tratamentos mais modernos permitem que a doença permaneça adormecida (em remissão) e assintomática por tempo indeterminado.
“Além da quimioterapia, que utiliza medicamentos para atacar preferencialmente a célula cancerosa, mas que atingem, também, as normais; e a radioterapia, que por meio de radiação, atinge as células cancerígenas e, em parte, as saudáveis; há tratamentos bastante inovadores, que contribuem muito para a qualidade de vida da paciente com câncer de mama metastático”, ressalta Buzaid.
Entre os tratamentos mais modernos, destacam-se:
– Hormonioterapia: “Apesar do nome sugerir um tratamento realizado com hormônios, em geral estamos realizando um bloqueio da via hormonal, levando à morte da célula cancerosa. Ou seja, trata-se da utilização de anti-hormônios para controlar o câncer por um longo período. A maioria dos cânceres de mama tem receptores para estrógeno (chamado de tumores luminais) e precisam do estrógeno para sobreviver. Quando você reduz o nível de estrógeno no sangue da paciente ou bloqueia sua ligação ao receptor que fica na célula cancerosa, ela morre”, explica o médico.
– Imunoterapia: estimula o sistema imunológico para que suas células reconheçam e combatam as células tumorais.
– Terapia alvo: também conhecida como terapia direcionada, é o uso de drogas ou outras substâncias para identificar e atacar mais especificamente as células cancerígenas, provocando menos danos às células normais.
– Anticorpos conjugado a drogas (ACDs): “Representam uma estratégia de vetorização da quimioterapia, ou seja, eles direcionam o medicamento quimioterápico para atacar predominantemente o “bandido”. Combinam uma terapia alvo com quimioterapia ao mesmo tempo. Dessa forma é possível reduzir os efeitos colaterais e aumentar a eficácia do tratamento”, conta Buzaid.
Paciente no centro do cuidado
O câncer de mama metastático é uma condição que afeta profundamente a vida das mulheres, não apenas fisicamente, mas também emocional e psicologicamente. Por isso, o cuidado integral envolve não apenas a medicina, mas, também, o suporte emocional e social.
Defensora de um olhar mais amplo para a realidade da paciente, Solange alerta que o conceito de saúde extrapola o patamar físico e é preciso buscar, também, o equilíbrio emocional, social e psicológico dessas mulheres, porque o diagnóstico de câncer vai interferir em todas essas facetas. “A gente tem que expandir o cuidado para os outros aspectos que envolvem a saúde”.
Com a terapia mais adequada, informação e apoio, as pacientes de câncer de mama metastático podem viver mais e com melhor qualidade de vida. “A vida, para mim, é uma roda gigante. Tem seus baixos, mas tem seus altos, também. Ao longo do tratamento vão surgindo importantes descobertas científicas na área da oncologia, e o medo vai dando lugar à esperança”, conclui Silvia, que como voluntária da Comissão de Pacientes do Instituto Oncoguia, tem buscado representar a voz das pacientes com câncer de mama metastático, na defesa do acesso aos tratamentos, pela qualidade de vida e pelas oportunidades de inclusão em estudos clínicos que oferecem medicações inovadoras.
Referência
- Sociedade Brasileira de Mastologia – SBM. Disponível em: https://outubrorosa.sbmastologia.com.br/. Acesso em: 21 de novembro de 2024.