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Uma em cada dez crianças já foi vítima de violência sexual no mundo

Consequências do abuso são profundas e duradouras, incluindo transtornos mentais, doenças, gravidez indesejada e risco de suicídio

Por Lucas Rocha
13 jan 2025, 15h13
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Violência sexual infantil pode deixar traumas duradouros (Foto: Freepik/Divulgação)
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Problema de saúde pública global, a violência sexual atinge cerca de uma em cada dez crianças no mundo. Os dados são de um novo estudo publicado no periódico Jama Pediatrics na segunda-feira, 13.

Para chegar aos resultados, os pesquisadores revisaram informações de mais de 150 trabalhos científicos. Enquanto 11% das crianças sofreram assédio sexual, 9% foram vítimas de violência por contato.

“O assédio sexual pode ser considerado a partir da imposição de certas ideias, falas ou valores na vítima, como explica o psicólogo Maycon Torres, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Como exemplo, a introdução de algum tipo de conteúdo sexual que não condiz com a etapa de desenvolvimento da criança. “Ou o incentivo a se tocar, dançar ou fazer algum tipo de gesto ou movimento mais sexualizado para o adulto”, detalha. Já a violência de contato é a perpetuação do abuso do contato físico.

Além disso, a análise revela que 6% das crianças relataram ter sofrido relações sexuais forçadas completas em algum momento da vida.

+ Leia também: Uma vida de fúria: o que a escalada da violência diz sobre a sociedade?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a violência sexual é definida como qualquer contato sexual não consensual concluído ou tentado, e até mesmo atos de natureza sexual que não envolvam toques.

Os casos são perpetrados por pessoas mais velhas ou por colegas. Na grande maioria dos casos, o abusador é alguém próximo da criança. Entre os fatores de risco identificados, estão outras formas de maus-tratos infantis, falta de cuidados parentais e condições crônicas mentais ou físicas das vítimas.

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As consequências podem ser profundas e duradouras, incluindo infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), gravidez indesejada, transtornos mentais, uso de substâncias e risco de suicídio.

“Estudos epidemiológicos mostram que as experiências de violência influenciam em uma escalada de transtornos depressivos e de isolamento social”, afirma Torres.

“Encontramos ainda uma correlação entre o abuso e o risco de transtornos de personalidade, principalmente borderline, que é marcado por instabilidade afetiva, alteração no pensamento, comportamento mais impulsivo e agressividade com o outro e contra si próprio”, acrescenta Torres.

Além disso, crianças abusadas sexualmente correm um risco significativamente maior de cometer crimes futuramente.

Detalhes do estudo

Ao todo, os especialistas identificaram 165 estudos, que incluíram mais de 958 mil crianças de 80 países, sendo a maioria dos dados focados em meninas (58,2%). A idade média dos jovens era de 10 a 19 anos.

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O assédio sexual foi o resultado mais prevalente, relatado por 11,4% dos incluídos nos estudos, seguido por qualquer violência sexual de contato, com 8,7%.

Além disso, 6,1% das crianças relataram ter experimentado relações sexuais forçadas completas em sua vida, e 1,3% afirmaram terem sido vítimas no ano anterior.

+ Leia também: É preciso dar um basta ao abuso sexual de crianças e adolescentes

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Violência sexual infantil é um problema de saúde pública global (Foto: topntp26/Freepik)

Como identificar sinais de violência sexual infantil

Em cerca de 80% dos casos, o abusador é um dos pais ou indivíduo com algum laço afetivo com a família da vítima e conhecido da criança, fator que dificulta a detecção dos casos.

Em geral, a identificação pode ser feita a partir do relato da criança, pela constatação da existência de lesões genitais ou anais, após o diagnóstico de ISTs ou gravidez.

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Além disso, as mudança de comportamento estão entre os principais indícios desse tipo de violência. Parte das manifestações são inespecíficas e podem ter relação com outras questões de saúde mental.

No entanto, é importante observar:

  • Dificuldades de aprendizado
  • Fugas de casa
  • Mudanças súbitas de humor
  • Fobias
  • Pesadelos
  • Rituais compulsivos
  • Ações autodestrutivas ou tendências suicidas
  • Comportamentos sexualizados
  • Isolamento social
  • Aversão ou desconfiança de adultos

As vítimas também podem apresentar reações agudas de choro ou episódios de nervosismo, com agitação, descontrole, gritos e quebra de objetos. É comum ainda a manifestação de reações ao toque, como esconder a região íntima, evitar lavar ou não querer que passem a mão durante o banho, por exemplo.

“Existe um outro conjunto de sinais que precisam de uma atenção mais refinada, que se manifestam a partir de desenhos, comentários avulsos, falas aparentemente sem muito valor ou contexto, mas é preciso ter uma escuta atenta para poder captar esses sinais”, frisa Torres.

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+ Leia também: A arte como instrumento na prevenção do abuso sexual infantil

Prevenção

As metas das Nações Unidas (ONU) para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável pedem a eliminação de todas as formas de violência contra crianças e a obtenção da igualdade de gênero.

O novo estudo destaca que o desenvolvimento de programas e políticas de prevenção eficazes depende da coleta e análise sistemática de estimativas de prevalência comparáveis em nível global. Nesse contexto, pesquisas que coletam dados diretamente de crianças, são consideradas o método mais confiável para isso.

Os autores defendem o aprimoramento dos esforços de coleta de dados no mundo, especialmente em regiões pouco pesquisadas e para meninos vítimas do abuso.

“Há uma conscientização maior acerca da violência sofrida pelas meninas em comparação aos meninos. Existe um componente cultural que os associa a uma necessidade de maior resiliência, ou seja, a uma ideia de que eles têm que ser fortes ou que não seriam vítimas de abuso, o que é um equívoco”, pontua Torres.

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