Ícone de fechar alerta de notificações
Avatar do usuário logado
Usuário

Usuário

email@usuario.com.br
Super Black Friday: Assine a partir de 5,99

Licença-paternidade é aprovada na câmara: estudos atestam benefícios para pai e bebê

A presença paterna logo após o nascimento fortalece o vínculo e contribui para o desenvolvimento e a imunidade do bebê, dizem estudos

Por Layla Shasta
6 nov 2025, 06h00 •
Projeto aprovado altera legislação, passando a licença-paternidade de cinco para 20 dias
Projeto aprovado altera legislação, passando a licença-paternidade de cinco para 20 dias (pikisuperstar/Freepik)
Continua após publicidade
  • A Câmara dos Deputados aprovou nesta terça-feira (4) o projeto de lei que amplia gradualmente a licença-paternidade no Brasil de cinco para 20 dias. Pela proposta, a mudança deverá ser implantada ao longo de quatro anos após a aplicação da lei. Assim, nos dois primeiros anos, a licença seria de 10 dias, passando para 15 dias no terceiro ano e 20 no quarto. A medida segue agora para análise do Senado.

    O debate sobre ampliar a presença dos pais nos cuidados iniciais movimenta não só leis e prazos, mas também diz respeito à saúde e o bem-estar das famílias. Não à toa, diversas pesquisas tentam entender o que muda quando eles conseguem ficar mais tempo no início da vida dos filhos.

    Os estudos apontam efeitos que vão desde a redução no estresse doméstico ao fortalecimento do vínculo afetivo, passando por reflexos no desenvolvimento do bebê e até em melhorias de saúde. À medida que o tema ganha força por aqui, cresce também o interesse em responder a uma pergunta: o que a ciência diz sobre os benefícios da licença-paternidade maior?

    Veja a seguir as principais benesses já conhecidas:

    Tempo junto faz bem para todo mundo

    Pesquisas de diferentes países mostram que o tempo de licença não é só um detalhe burocrático. Tempo junto faz bem para todos. Por exemplo, uma revisão bibliográfica feita por pesquisadores da Califórnia, que analisou centenas de estudos sobre o tema, observou que, em diferentes pesquisas, famílias nas quais o pai tirou a licença apresentaram menos hospitalizações entre os bebês.

    A explicação passa pelo óbvio, mas também pelo profundo: o cuidado coletivo mais próximo nas primeiras semanas influencia a saúde geral da criança. Entre os benefícios que justificam isso, estão a redução do risco de lesões e maior adesão à vacinação.

    Aliás, o cuidado também traz ganhos ao adulto. “Promove o desenvolvimento de áreas do cérebro que integram melhor funções como vigilância, percepção, sensação de recompensa e motivação, compreensão social e empatia”, exemplifica o neuropediatra Marcos Escobar, do Hospital Nove de Julho.

    Continua após a publicidade

    O cérebro que aprende a cuidar

    Embora seja a mãe quem passa por transformações corporais desde a gestação, a ciência tem mostrado que o pai também vivencia adaptações cerebrais após o parto. E a licença-paternidade demonstra ter um papel importante nesse processo, ao dar ao cérebro o tempo necessário para se adaptar ao novo papel.

    Segundo o diretor da Sociedade Brasileira de Pediatria, Rodrigo Aboudib, a transição para a paternidade representa um momento de intensa neuroplasticidade, isto é, a capacidade do cérebro de modificar sua estrutura e função em resposta às experiências. Isso quer dizer que cuidar de um bebê literalmente muda o cérebro.

    Pesquisas do Laboratório de Neuroendocrinologia dos Laços Sociais da Universidade de Harvard têm indicado que o período de licença pode favorecer essas modulações.

    Em um dos seus estudos, o grupo comparou as atividades cerebrais de pais de primeira viagem dos Estados Unidos e da Espanha. Os dois grupos mostraram alterações, mas os espanhóis – que contam com um período de licença mais generoso –, tiveram mudanças mais intensas em regiões cerebrais importantes para o foco e o cuidado infantil.

    Aboudib confirma a hipótese: “é justamente essa oportunidade de estar junto com seu filho ou sua filha, nesses momentos iniciais, que forma e dá plasticidade ao cérebro para que seja formado um “cérebro paterno”, pontua.

    Continua após a publicidade

    +Leia também: Tempo de qualidade com os filhos ajuda no desenvolvimento infantil

    É importante destacar que a maioria das pesquisas sobre o tema ainda se concentra em famílias heterossexuais, mas os especialistas ressaltam que os benefícios não dependem do gênero do cuidador.

    “Quando falamos da importância do pai, estamos nos referindo à importância de uma figura de cuidado presente, afetiva e engajada”, diz Escobar. “Esse vínculo pode ser construído em qualquer arranjo familiar”, reforça o neuropediatra.

    Desenvolvimento neurológico

    As interações frequentes e afetuosas no primeiro ano de vida favorecem o desenvolvimento cognitivo e emocional da criança. “Essa convivência estimula áreas cerebrais relacionadas à linguagem, à regulação emocional e ao apego seguro”, explica Escobar.

    Isso acontece porque o cérebro do bebê é altamente plástico nesse período e se desenvolve a partir das experiências de vínculo e responsividade dos adultos ao redor. Por isso, segundo o neuropediatra, quanto mais consistentes e sensíveis forem essas interações, mais fortes se tornam as redes neurais associadas à segurança e à aprendizagem.

    +Leia também: Marcos do desenvolvimento: o que seu filho deve fazer em cada idade

    Mais amamentação, mais saúde

    A presença do cuidador, além da mãe, também faz diferença na amamentação, que é especialmente importante nos primeiros dias de vida. Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), por exemplo, calculou que o risco de interrupção precoce do aleitamento materno é 1,6 vezes maior quando o pai não está presente.

    Continua após a publicidade

    Segundo Aboudib, isso repercute diretamente na saúde do bebê. “Melhorar a imunidade de uma criança passa por favorecer que ela tenha uma microbiota intestinal [conjunto de microrganismos que habitam o intestino] saudável e a melhor forma de conseguir isso é através do leite materno”, destaca.

    A revisão de estudos conduzida na Califórnia reforça essa ideia. Segundo o trabalho, tudo indica que a presença do pai durante a licença-paternidade tende a aumentar a duração do aleitamento materno.

    Esse efeito, ressalta o pediatra brasileiro, se traduz em uma criança mais protegida. “O intestino, por meio da microbiota, produz substâncias que modulam a resposta imunológica, alérgica, inflamatória e até a resposta à dor“, ensina. E quanto mais consistente a amamentação, mais benefícios para esse sistema.

    Igualdade de gênero e bem-estar familiar

    Além dos impactos na saúde, a licença-paternidade ampliada é vista como uma política de cuidado com efeitos sociais e econômicos de longo prazo.

    Uma revisão conduzida pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP (Made/USP), que analisou mais de 50 estudos, apontou que o aumento da licença resulta em maior envolvimento dos pais nas atividades domésticas e de cuidado, maior vínculo com os filhos e menor desigualdade de gênero.

    Continua após a publicidade

    “Depois de muitos estudos, concluímos que o principal motivo para as mulheres se envolverem mais nas tarefas domésticas é um fator normativo de gênero muito forte”, explica Luiza Nassif Pires, codiretora do Made e professora do Instituto de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp).

    Para a especialista, a licença-paternidade tem potencial de transformar essa dinâmica, afetando a forma como os homens se enxergam no cuidado e nas responsabilidades familiares.

    Com isso, surgem efeitos em cadeia: redução da desigualdade salarial, da violência doméstica, equilíbrio no mercado de trabalho e maior produtividade futura, já que políticas de cuidado impactam o desenvolvimento infantil e o bem-estar social.

    “Por exemplo: todo mundo já ouviu um empregador dizendo que não quer contratar uma mulher porque ela pode tirar licença-maternidade. Quando a duração da licença-paternidade se aproxima, equilibramos um pouco essas condições no mercado”, aponta Pires.

    Redução do estresse e equilíbrio emocional

    Os benefícios se estendem também à saúde mental da família. Altos níveis de estresse no ambiente podem impactar o desenvolvimento neurológico do bebê, especialmente nos primeiros meses de vida, quando o cérebro é mais sensível às condições emocionais ao redor.

    Continua após a publicidade

    “A presença ativa de outro cuidador durante esse período contribui para reduzir a sobrecarga e aumentar a sensação de suporte, o que tende a melhorar o equilíbrio emocional de toda a família”, diz o neuropediatra.

    Ainda, pesquisas mostram que o contato pele a pele entre pai e bebê eleva os níveis de ocitocina, o hormônio do afeto, em níveis semelhantes aos das mães. 

    Caminho a ser percorrido

    Resumindo, segundo Pires, os principais resultados do levantamento do Made-USP mostram que, quando o pai está presente nos primeiros dias, crianças tendem a ter melhor bem-estar emocional, mais habilidades sociais, desempenho escolar superior e menos comportamentos de risco na adolescência. Há ainda ganhos claros na linguagem e no desenvolvimento socioemocional.

    O Made/USP também chama atenção para um ponto de risco: quando a licença-paternidade depende apenas da política das empresas, e não de uma lei, ela tende a se concentrar em trabalhadores com empregos de maior escolaridade. “Isso acaba aprofundando desigualdades”, afirma Luiza. Por isso, o centro reforça a importância de que a licença seja obrigatória e acessível a todos os grupos econômicos.

    Assim, para os especialistas, a discussão atual sobre uma lei relacionada à licença é bem-vinda, mas ainda representa só o início. Luiza explica que os melhores resultados aparecem em benefícios com duração de, pelo menos, 30 dias. “Estamos caminhando em direção a um modelo mais adequado, mas começamos com 10 e só chegamos a 20”, comenta.

    Ainda assim, a possível ampliação é celebrada. “Esse tempo é necessário, é fundamental”, celebra Aboudib. “Esse precisa ser o primeiro passo de uma grande jornada para a mudança cultural da função paterna na família em nosso país”, afirma.

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    BISCOITO

    Digital Completo

    Sua saúde merece prioridade!
    Com a Veja Saúde Digital , você tem acesso imediato a pesquisas, dicas práticas, prevenção e novidades da medicina — direto no celular, tablet ou computador.
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    BANANA

    Revista em Casa + Digital Completo

    Receba Veja Saúde impressa e tenha acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*
    De: R$ 26,90/mês
    A partir de R$ 9,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês.