Injeções de esperança: a medicina e a espiritualidade
Última edição do ano de VEJA SAÚDE aborda as interfaces entre medicina e espiritualidade - das pesquisas ao consultório

“Deixai toda esperança, ó vós que entrais.” Eis o que se lê no portal de entrada do Inferno segundo A Divina Comédia, de Dante Alighieri. A famosa frase resume o que se perde ao penetrar no pior dos mundos, quer acreditemos nele, quer não.
Pessoas que se consideram racionais e céticas podem (e devem) nutrir a expectativa de dias melhores, mas é fato que aquelas que cultivam uma espiritualidade e creem em algum tipo de transcendência estão, conscientemente ou não, alimentando a esperança a cada reza, oração, meditação ou culto.
“No princípio eram o medo e o encantamento. Assim nasceu o sentimento do sagrado”, escreve o filósofo e sociólogo francês Frédéric Lenoir em A Odisseia do Sagrado (clique para comprar), recém-lançado pela Editora Vozes. Viver é não ter todas as respostas. Daí os temores, as fantasias, os sonhos.
Ter fé — em Deus, nas forças da natureza, em entidades de outro plano… — é, de certo modo, ter esperança. Para não desistir em meio aos obstáculos e inquietações. Por isso, tratar de espiritualidade e de sua relação com a saúde é falar da esperança de manter o vigor, de virar a página no estilo de vida, de se recuperar de uma doença — sejamos adeptos ou não de uma religião.
Um dos filósofos mais aclamados da atualidade, Byung-Chul Han acaba de publicar no país um pequeno e profundo livro, O Espírito da Esperança — Contra a Sociedade do Medo (clique para comprar), também pela Vozes. Em tempos marcados por catástrofes — uma pandemia mal curada, guerras na Europa, na África e no Oriente Médio, ameaças climáticas, sem falar nas agruras do cotidiano brasileiro —, o autor sul-coreano radicado na Alemanha prescreve a esperança como antídoto pessoal e social.
Esperança difere de desejo e expectativa, nos ensina Han: estes se referem a metas ou objetos individuais restritos a uma dimensão totalmente mundana. A esperança vai além: proporciona sentido, e não apenas a mim ou a você, pois sua força é coletiva.
Para o filósofo, sonhar acordado é enxergar horizontes mais plenos e serenos e ter motivos para torná-los uma realidade a ser compartilhada com os outros. Independentemente do credo de cada um, sem esperança não evoluímos, como cidadãos, comunidades e espécie.
Hoje, a medicina tradicional e baseada em evidências, ciente de que não tem todas as respostas e soluções, também estende seus braços à espiritualidade. Estuda-se até que ponto ela promove ganhos à saúde e na reabilitação de doenças. Mais do que isso: contempla-se e respeita-se algo que pode fazer sentido e bem ao paciente, dentro de uma abordagem ética e acolhedora, como expõe a reportagem de capa de Lucas Rocha.
O fim do ano marca um nascimento celebrado por bilhões de pessoas e o despertar de um novo ciclo. Não há melhor momento de reinjetar boas doses de esperança.
E o prêmio vai para…
Fechamos o ano com chave de ouro, com o perdão do chavão. Mas realmente cheios de troféus. VEJA SAÚDE foi eleita o veículo especializado em saúde de 2024 no Prêmio Einstein + Admirados da Imprensa de Saúde, Ciência e Bem-Estar, promovido pelo hospital paulistano e a plataforma Jornalistas & Cia.
Na mesma noite, eu e Chloé Pinheiro entramos no rol dos grandes jornalistas da área – e tive a honra de estar entre os destaques, mais uma vez, do Prêmio Especialistas, da plataforma Negócios da Comunicação.
Em paralelo, Larissa Beani ganhou a medalha de prata no Prêmio de Comunicação José Luiz Egydio Setúbal, focado em saúde infantil — Letícia Raposo e Thiago Lyra assinaram a arte e as ilustrações da reportagem consagrada.
São láureas que faço questão de compartilhar com quem representa a maior razão de existir do nosso trabalho: vocês, leitores.