“Surubão do Arpoador”: o que está por trás da prática de cruising
Prática de sexo ao ar livre é crime, mas envolve fatores socioculturais complexos que merecem um olhar cuidadoso

Parque Ibirapuera, em São Paulo, Floresta do Sussurro, em Brasília, Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Você pode se perguntar o que todos esses locais têm em comum. No cair da noite, eles recebem praticantes da pegação e do sexo ao ar livre, uma prática chamada popularmente de cruising.
Isso acontece não só nas grandes metrópoles. Provavelmente, sua cidade também abriga um lugar assim. Em geral, são pontos já conhecidos dos adeptos, que se comunicam através de olhares, gestos provocativos ou sinais.
Na virada do ano, um grupo grande de pessoas foi observado praticando o cruising na Pedra do Arpoador, na Zona Sul da capital fluminense. Desde então, o fato repercutiu amplamente na internet.
Nas redes sociais, o tal “surubão do Arpoador” gerou discussões acaloradas. Parte dos usuários condenou o ato em local aberto, ressaltando ainda o risco de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Outros criticaram a filmagem e exposição dos participantes na web.
Aprofundando um pouco o debate, podemos refletir sobre o episódio para além do contexto meramente dicotômico, que tende a dividir as coisas entre certo e errado.
É fato: no Brasil, fazer sexo em locais públicos ou abertos ao público é considerado crime. A ação se encaixa na prática de ato obsceno, de acordo com o Código Penal de 1940. A pena é de detenção de três meses a um ano ou multa.
“Considera-se um crime de menor potencial ofensivo. Caso o indivíduo seja réu primário e com bons antecedentes, o Estado entende que não faz sentido colocá-lo na cadeia por conta disso”, explica a advogada criminalista Ana Paula Braga, do escritório Braga & Ruzzi Advogadas.
Considerando que o cruising é um fenômeno social, que acontece há mais tempo do que a regulação das infrações penais e não deve desaparecer tão cedo, especialistas em comportamento sugerem um olhar mais cuidadoso sobre a questão.
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Passado e presente
A busca por relações sexuais em locais públicos está longe de ser um fenômeno recente, como detalha Bruno Amaral, pesquisador do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP).
“Na Grécia Antiga, a prática acontecia nos Ginásios, enquanto no Império Romano ocorria nas Casas de Banho. Na Idade Média, mesmo com a forte repressão da Igreja, era observada em becos e nas tavernas”, afirma. “Mas chamar esses eventos de cruising é um anacronismo, porque os contextos culturais e as percepções sobre sexualidade eram outros”, pondera Amaral.
O entendimento do fenômeno como ele é conhecido hoje, em contexto urbano, começa a se estruturar em torno do final do século 19, acompanhando o crescimento das cidades, fator que favorecia o anonimato. O termo tem origem no verbo “to cruise”, em inglês, que significa “navegar” ou “percorrer”.
“A expressão consolidou-se como parte do ‘vocabulário gay’ nesses países e, um pouco mais tarde, com a disseminação da cultura LGBTQIAPN+ por filmes, livros, séries e músicas, foi sendo adotada em outros países, inclusive no Brasil”, explica.
O que leva as pessoas ao cruising?
A resposta é complexa e envolve um conjunto diverso de fatores. Historicamente, ele surge a partir da ausência de espaços legítimos e seguros para a expressão da sexualidade.
“Era uma alternativa para pessoas que viviam envergonhadas de seus desejos encontrarem seus semelhantes de forma clandestina, longe do julgamento moral da sociedade”, resume Amaral.
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Na avaliação do doutor em psicologia social Claudio Paixão, professor da Escola de Ciência da Informação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), esses encontros casuais e anônimos também despertam atenção por outras características, como questões sociais e econômicas.
“Para ir a um a um bar ou a uma boate, por exemplo, é necessário dispor de determinado nível de renda para estabelecer contato com outras pessoas. Quando se está em um local público, de pouca iluminação, todos os gatos são pardos, por assim dizer. Isso dá às pessoas a possibilidade de formar conexões com uma liberdade que outros espaços não permitiriam”, explica Paixão.
O professor da UFMG traça um paralelo entre a prática e o comportamento social durante o carnaval.
“Durante o cruising, o adepto pode fazer algo que não faria em outras situações por conta do anonimato e o fato de ‘sumir na massa’. O mesmo acontece no carnaval, quando um indivíduo fica com várias pessoas ou faz sexo em banheiro químico”, afirma Paixão.
Além disso, o quesito aventura que pode tornar as coisas um pouco mais emocionantes. “Tem toda a questão da espontaneidade do encontro casual, da adrenalina, do risco de ser flagrado, que pode ser excitante para alguns praticantes”, pontua Amaral.
Questões de sexualidade e gênero
Os especialistas enfatizam que o cruising é praticado por homens e mulheres, de diversas orientações sexuais. “Existe uma associação histórica e cultural entre o cruising e as comunidades LGBTQIAPN+, especialmente homens gays e bissexuais, mas mulheres e casais de outras orientações também praticam, em menor proporção”, frisa Amaral.
O pesquisador da USP avalia que essa diferença proporcional está associada às várias questões sociais que perpassam a vivência da sexualidade. Heterossexuais têm mais opções de lugares privados para a expressão sexual.
“Por exemplo, um homem heterossexual que mora com os pais não enfrenta os mesmos problemas para levar uma parceira em casa que um homem gay enfrentaria. Ele não precisa ter medo de ser visto com uma mulher pelos seus vizinhos, familiares ou colegas de trabalho”, resume.
Além disso, a sociedade considera valores morais diferentes sobre a expressão da sexualidade masculina e feminina.
“Homens, de forma geral, são ensinados a expressar desejos sexuais mais diretamente e com menos restrições sociais. Mulheres, por outro lado, além de serem ensinadas desde cedo a serem castas, também precisam considerar o risco à sua integridade física envolvido em encontros anônimos. Esses fatores acabam por reduzir a participação feminina nesse tipo de prática”, afirma Amaral.
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Redução de danos em prol da saúde
Para o especialista da UFMG, a compreensão do cruising como um fenômeno social pode ajudar a contribuir para a segurança das pessoas.
Informação é palavra-chave no contexto da saúde sexual. Jogar o tabu para debaixo do tapete, fingir que determinados tipos de relações não acontecem ou condenar o comportamento alheio são atitudes que alimentam o estigma em torno das ISTs e afastam a população dos serviços de saúde.
O Sistema Único de Saúde (SUS) disponibiliza testes rápidos para infecções como HIV, sífilis e hepatites B e C. Contudo, ainda com a oferta gratuita dos exames, a subnotificação de casos no país permanece um desafio, pois muitas pessoas têm medo ou vergonha de buscar atendimento médico.
Vale destacar que vírus, bactérias, protozoários e fungos associados a essas doenças estão espalhados por aí (e não escolhem hospedeiros). Ou seja, praticantes ou não de cruising podem entrar em contato com os micro-organismos em algum momento da vida.
Para todas as pessoas com vida sexual ativa, nos últimos anos, a prevenção de ISTs ganhou novos aliados que se juntam à camisinha para blindar essas encrencas.
Para quem não consegue fazer o uso frequente do preservativo, recomenda-se a utilização da profilaxia pré-exposição ao HIV (PrEP). Diante de um episódio de rompimento do preservativo ou de uma relação casual desprotegida, a profilaxia pós-exposição ao HIV (PEP). Saiba tudo sobre PrEP e PEP aqui.
No cardápio da Prevenção Combinada, há ainda a DoxiPEP, que consiste no uso do antibiótico doxiciclina em comprimidos após uma relação sem camisinha. Dados científicos têm demonstrado a eficácia e a segurança da estratégia para evitar infecções por clamídia e sífilis e, com menor impacto, por gonorreia.
“A presença de pontos de distribuição de preservativos em locais conhecidos por práticas de cruising é uma estratégia que já foi adotada com sucesso em várias cidades do mundo. Informar sobre a importância do sexo seguro, consensual e responsável também é fundamental”, reforça Amaral.
Don’t touch, it’s art
Talvez, o grand finale de toda essa narrativa tenha ficado por conta da imortalização do “surubão” em uma pintura acrílica sobre tela do artista visual Charlles Cunha, de São Paulo. Desde 2020, Cunha inclui elementos que viralizam na internet em sua pesquisa artística.
“Meu trabalho parte das imagens ou vídeos que circulam na web, seja de acontecimentos, web celebridades ou memes… Como artista, busco criar novas narrativas, trazer outros olhares para essas imagens que são de certa forma urgentes e efêmeras, trazer um outro tempo pra elas. Por isso, uso a linguagem da pintura”, conta.
Para a obra, de 30 x 20 centímetros, foram aproximadamente quatro dias, entre pesquisa, análise e mão na massa. E surtiu efeito: em pouco tempo, o quadro já estava circulando em todos os cantos das redes sociais.

“No primeiro dia, a imagem da obra tinha ‘furado a bolha’ e estava provocando uma certa revolta entre pessoas mais conservadoras. A obra gerou e ainda está gerando uma enorme discussão na internet. Como artista, fico bem feliz, porque acredito que esse é um dos papéis da arte contemporânea”, enfatiza Cunha.
A pintura foi vendida foi vendida no dia seguinte a um casal brasileiro que mora em Nova York. Um segundo quadro já está reservado a um colecionador.
“Existem muitas camadas tanto dentro da prática do cruising como na arte erótica. A minha obra não revela nada, são apenas figuras masculinas no meio da natureza e isso já é o suficiente para mexer com o imaginário do público“, conclui.