A saúde precisa de colaboração — agora mais do que nunca
Reflexões sobre a única saída para seguirmos garantindo saúde como direito acessível para todos

Voltamos da nossa participação no Fórum Econômico Mundial (WEF) de 2025 com a certeza de que o setor da saúde passa por um ponto de inflexão.
Se de um lado temos a revolução da inteligência artificial trazendo cada vez mais oportunidades de ganho de escala e eficiência, por outro, temos uma fragilidade dada pela complexidade de assuntos como o clima e a geopolítica.
O Fórum acontece anualmente em Davos, na Suíça, no começo do ano, com a proposta de apresentar as tendências de diferentes setores. Na nossa primeira participação, em 2022, o tema da saúde estava em destaque por conta da pandemia. Entre líderes de diferentes áreas, da iniciativa pública e privada, era consenso que o tema está no centro de questões sociais e econômicas.
Não dava para ser diferente. Também, havia um clima de celebração sobre a importância de colaborações para o desenvolvimento de vacinas. E da relevância de organizações multilaterais como a Organização Mundial de Saúde (OMS) para lutar por maior equidade de acesso.
Em 2025, a saúde continuou como um tema central do encontro, especialmente áreas como a saúde da mulher, a relação entre saúde e crise climática e a IA e seus impactos no setor. No entanto, o elefante na sala de todas as discussões foi a decisão de Trump de retirar os Estados Unidos (EUA) da OMS.
Especialmente porque o anúncio foi feito enquanto o evento acontecia, o assunto ficou latente. A percepção que tivemos é de que a falta de colaboração internacional se tornou a grande ameaça à saúde pública. O que é irônico, considerando que o tema do evento do ano foi “Cooperação na Era da Inteligência”.
Sem os recursos financeiros e a influência política dos EUA, a OMS enfrenta um enfraquecimento num momento em que o mundo precisa de mais coordenação para responder às mudanças climáticas. Os números apresentados no WEF são um alerta: em 2024 a OMS respondeu a 89 crises de saúde em 51 países diferentes.
E metade delas foram causadas ou agravadas por eventos climáticos extremos.
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A pergunta que ressoou entre os líderes globais reunidos em Davos foi clara: o mundo pode se dar ao luxo de uma OMS enfraquecida enquanto as emergências de saúde se multiplicam?
A saída dos EUA da OMS pode ser um duro golpe para a governança global da saúde, mas também é uma oportunidade para que novos líderes assumam o protagonismo e para que setores públicos e privados atuem juntos em soluções concretas. O desafio não é pequeno, mas a alternativa – o colapso da saúde global – é inaceitável.
Davos deixou uma mensagem clara: colaboração não é mais uma opção – é a única saída.
A saúde global precisa de comprometimento real, de investimentos sustentáveis e de uma abordagem intersetorial que envolva governos, empresas, sociedade civil e comunidades locais. Se quisermos um futuro onde a saúde seja um direito acessível para todos, a hora de agir é agora e o modo de chegar lá é juntos.