Trauma racial: um estresse crônico e permanente
Situações de racismo deixam marcas profundas por toda a vida, com repercussões na saúde física e mental

A questão racial envolve muitas dimensões, e uma delas é a da saúde.
Uma série de estudos aponta que o estresse e o trauma derivados de ideias, culturas e práticas racistas afetam o bem-estar físico e emocional de pessoas negras.
Sim, o corpo e a mente podem encarar consequências tanto dos episódios de racismo explícito quanto do acúmulo de microagressões por motivações raciais.
O estresse não decorre apenas de vivências diretas com o racismo. Pode vir à tona ao testemunhar ou ouvir relatos de violência racial — algo constante na vida de pessoas negras, uma vez que os episódios atravessam o tempo todo o noticiário e as redes sociais.
Daí resulta uma segunda característica do problema, a hipervigilância, um estado em que o cérebro passa a funcionar em alerta perene, como se precisasse se defender a qualquer momento de uma ameaça.
Assim, o sistema nervoso passa a operar sob altas cargas de estresse, o que resulta em anestesia emocional, padrões de reatividade e adoecimento (físico ou mental).
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Pesquisas atuais indicam que muitas doenças que são mais prevalentes na população negra (incluindo alguns tipos de câncer) são fortemente influenciadas pelo processo inflamatório decorrente da sustentação crônica do estresse no organismo.
Nesse contexto, o professor Raymond Rodriguez, da Universidade Colúmbia (EUA), nomeia como ginástica mental uma espécie de varredura imediata e quase inconsciente que uma pessoa negra ou indígena faz quando entra em um espaço novo.
Ele afirma que a cor predominante das pessoas no ambiente informa ao seu senso de segurança quanto elas pertencem ao lugar ou não, fazendo-as selecionar o que podem ou não expressar ali. Ou seja, há uma restrição comportamental e social. No fundo, mais estresse!
O psicólogo Philip Goff, em um de seus estudos na Universidade da Califórnia (EUA), pediu a policiais e também a mulheres brancas universitárias que julgassem fotos de crianças brancas e negras quanto à idade. Os respondentes projetaram em média quatro anos e meio a mais para as negras em relação aos palpites sobre as brancas. Os participantes do experimento também tendiam a considerar, em suas projeções, os meninos negros como menos inocentes e mais problemáticos.
A essa tendência, em vez de racismo ou preconceito, Goff chama de desumanização. Se eu vejo um garoto de 10 anos não como uma criança, mas como um adolescente, isso repercute na forma como ele será tratado. Tal distorção associada ao racismo criminaliza corpos negros e coloca em risco a segurança desses jovens.
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Esses são apenas alguns exemplos de como um trauma racial de base histórica projeta novos desafios e aniquila potencialidades.
Para lidar com o estresse racial, é preciso considerar todos os dias as marcas e cicatrizes que ele é capaz de produzir e dar novos passos para evitá-las.
Isso depende de ações individuais, coletivas e institucionais que permeiam o letramento, a conscientização, o cuidado com a saúde e, principalmente, o combate às violências raciais.
*Ediane Ribeiro é psicóloga e autora do livro Os Tesouros Que Deixamos pelo Caminho, recém-lançado pelo selo Paidós