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Tecnologia para cuidar da próstata chega aos rincões da Amazônia

Iniciativa demonstra que avanços tecnológicos e abordagens criativas podem expandir o acesso a cuidados de saúde de alta qualidade

Por Ricardo Vita, médico da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU)*
6 fev 2025, 15h30
populações amazônicas a acesso à saúde
Expedição reforça a importância da preparação e do treinamento de equipe (Foto: Sébastien Goldberg/ Unsplash/Divulgação)
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A saúde do homem é muitas vezes negligenciada, por diversas razões culturais, pessoais e regionais. Essa é uma realidade que se torna ainda mais evidente e preocupante em áreas remotas como a Amazônia.

Nessa região, marcada por desafios de infraestrutura e pela vasta presença de comunidades indígenas e ribeirinhas, o acesso limitado aos serviços de saúde agrava a adesão masculina aos cuidados preventivos e tratamentos médicos. Essa combinação de fatores coloca em risco a qualidade de vida e a longevidade de muitos homens que ali habitam.

A hiperplasia prostática benigna (HPB), também chamada de próstata aumentada, é uma doença crônica e afeta cerca de 50% dos homens aos 60 anos e até 90% aos 85 anos de idade. Em geral, agravos que afetam a glândula são mais facilmente tratáveis em centros urbanos, os quais têm infraestrutura de saúde mais desenvolvida e proporcionam maior acesso a medicações e tecnologias de ponta.

A escassez na oferta dos serviços aos indígenas e ribeirinhos gera um grave impacto em suas saúdes e modo de vida, prejudicando atividades essenciais, como a pesca e a caça. Sem o tratamento adequado, esses pacientes podem tornar-se dependentes permanentes de sondas vesicais, desfecho extremo da progressão da HPB, quando esta provoca falência da bexiga.

+ Leia também: Câncer de próstata: as vantagens da cirurgia robótica

Entre outubro e novembro deste 2024, uma expedição de saúde inédita realizada na Amazônia teve com um dos focos a saúde masculina da população da Terra Indígena Alto Rio Negro. A iniciativa partiu da ONG Expedicionários da Saúde (EDS), internacionalmente reconhecida, que mapeou, em outubro de 2023, mais de 180 homens potencialmente portadores de HPB.

Nessas áreas remotas, há uma grande dificuldade em manter os pacientes em terapia medicamentosa de longo prazo, como é o caso da HPB, incidindo em tratamentos incompletos, intermitentes e ineficazes, o que incorre em maior risco de complicações, como a retenção urinária, cálculos vesicais, infecções urinárias e, até, insuficiência renal.

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A busca pela melhor solução levou em conta toda a complexidade logística e estrutural para aliar eficiência, custo, baixo índice de complicação, rápida recuperação e retorno às respectivas comunidades. Todos os equipamentos, materiais, insumos e medicações foram provisionados e deslocados para a localidade escolhida meses antes da expedição.

A iniciativa contou com apoio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Alto Rio Negro e do Exército Brasileiro.

O tratamento escolhido foi a tecnologia Rezūm, que aplica terapia por vapor de água para tratar o aumento da próstata, considerado ideal para ser levado a áreas remotas.

+ Leia também: Câncer de próstata: por que alguns tumores não exigem tratamento imediato?

Simples, de rápida execução e minimamente invasivo, a estratégia elimina o tecido em excesso, que causa obstrução urinária, sem a necessidade de cirurgias invasivas e demoradas. O procedimento é realizado, em média, em 5 minutos e o paciente liberado imediatamente após acordar da sedação, visto que não é necessária anestesia geral.

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A partir de triagem inicial e com base em critérios rigorosos, 80 homens foram selecionados para avaliação presencial com médico urologista durante a expedição. Desses, 50 foram atendidos na avaliação presencial, utilizando uma escala visual adaptada, que consiste em um escore para avaliação de sintomas urinários, visando quebrar a barreira de comunicação decorrente da diversidade de idiomas de cada etnia.

Também foi realizada ultrassonografia para avaliação do tamanho prostático e da saúde da bexiga. Para indicação do procedimento foram considerados os seguintes critérios: sintomas urinários que impactam diretamente a qualidade de vida, próstata menor que 100g e interesse do paciente em realizar o tratamento.

O centro cirúrgico móvel foi montado na comunidade de São Gabriel da Cachoeira (AM), em Assunção do Içana, em meio à floresta amazônica. O feito exigiu planejamento e inovação para garantir eficiência e segurança.

A estrutura foi composta por tendas de alta qualidade, projetadas para evitar o contato direto com o solo e a umidade da floresta. Materiais impermeáveis e isolantes térmicos foram utilizados para criar um ambiente controlado, com temperatura adequada e condições estéreis. A ONG Expedicionários da Saúde foi a responsável pela expedição e montagem destas estruturas.

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Para a realização do procedimento, a unidade foi equipada com mesa cirúrgica, sistemas de iluminação, ar-condicionado, torres de vídeo e de anestesia e monitoramento de sinais vitais. Apesar de algumas limitações estruturais, que impactaram no tempo de execução em alguns casos, a equipe adaptou-se às condições, mantendo a segurança e eficácia.

+ Leia também: Nova técnica trata câncer de próstata em uma única sessão

O Rezūm provou ser uma solução eficaz e adaptável, mesmo em condições desafiadoras, como as encontradas nesta localidade. A simplicidade do método e a necessidade mínima de recursos e medicamentos foram fundamentais para o sucesso da iniciativa.

Um dos destaques foi a redução progressiva no tempo total ao longo dos procedimentos, alcançando um tempo médio de apenas 37 minutos desde a admissão do paciente até sua saída.

O pós operatório dos pacientes foi realizado em redário em um barracão, acompanhado por enfermeiros, técnicos de enfermagem e voluntários, com supervisão médica do urologista até a retirada da sonda vesical, momento no qual todos retornaram às suas comunidades. A não necessidade de lavagem da bexiga, como acontece em praticamente todas outras alternativas cirúrgicas da próstata, foi essencial não só para a escolha da técnica, como para seu sucesso.

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Essa expedição reforça a importância da preparação e do treinamento de equipe, além de destacar o potencial transformador de iniciativas inovadoras em regiões remotas. O sucesso dos procedimentos na Amazônia também exemplifica como avanços tecnológicos e abordagens criativas podem expandir o acesso a cuidados de saúde de alta qualidade. Soluções simples que transformam vidas.

*Ricardo Vita é membro titular da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).

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