Tabagismo começa na infância: como falar com as crianças sobre isso?
Se a indústria do tabaco já está falando com as crianças, nós precisamos falar mais alto

Aos 10 anos, Sophia experimenta pela primeira vez um vape no banheiro da escola. Atraída pelo aroma de chiclete e pelo design colorido do dispositivo, ela não vê ali um risco à sua saúde, mas sim um símbolo de modernidade e pertencimento.
Esse cenário, que se repete diariamente em escolas de todo o mundo, é fruto de estratégias agressivas e calculadas da indústria do tabaco para recrutar dependentes cada vez mais jovens.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o tabagismo como uma doença pediátrica, uma vez que a maioria dos fumantes inicia o consumo ainda na adolescência ou mesmo na infância. O cenário se agrava com a ascensão dos dispositivos eletrônicos, também conhecidos como vapes, que têm ganhado popularidade entre os jovens.
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Um estudo recente da Fiocruz revelou que 14,8% dos adolescentes brasileiros já experimentaram algum produto derivado do tabaco, incluindo os cigarros eletrônicos, reforçando a necessidade de ações preventivas e educativas.
Jovens em risco
A indústria do tabaco age com sofisticação para atrair o público mais jovem. O design moderno, as cores e os sabores adocicados, como frutas e doces, fazem com que dispositivos como os vapes se tornem objetos de desejo.
Além disso, o marketing direcionado em redes sociais e a narrativa enganosa de “risco reduzido” promovem uma falsa percepção de segurança. Contudo, estudos demonstram que os cigarros eletrônicos contêm altas concentrações de nicotina, metais pesados e compostos tóxicos que prejudicam o desenvolvimento pulmonar e aumentam significativamente as chances de dependência ao longo da vida.
A exposição precoce à nicotina também afeta as funções cognitivas e comportamentais em crianças e adolescentes, deixando sequelas de longo prazo.
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O planeta também sofre

O impacto ambiental do tabagismo é tão grave quanto seus efeitos à saúde pública. A produção de tabaco contribui para 5% do desmatamento global anual e demanda aproximadamente 22 bilhões de toneladas de água, recursos críticos em meio à crise climática.
Atualmente, 4,5 trilhões de bitucas de cigarro são descartadas todos os anos, contaminando solos e ecossistemas aquáticos com microplásticos, metais pesados e substâncias tóxicas que ameaçam diretamente a biodiversidade marinha.
A ascenção dos cigarros eletrônicos amplia o problema, ao introduzir resíduos eletrônicos complexos, como baterias de lítio e componentes plásticos de difícil reciclagem, cuja decomposição prolongada e descarte inadequado agravam a poluição ambiental.
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Basta de silêncio
Diante desse cenário, o silêncio de muitos pais e educadores funciona como um aliado involuntário do setor tabagista. Muitos acreditam que abordar o tema do tabagismo é inadequado ou desnecessário para crianças pequenas.
No entanto, a Associação Americana de Pneumologia recomenda que o diálogo sobre os perigos do tabaco comece entre 5 e 6 anos e continue ao longo da adolescência, com mensagens claras e adaptadas à faixa etária. Conversas abertas, honestas e informativas têm o poder de superar a influência dos colegas e do marketing agressivo da indústria.
Foi com esse propósito que escrevi o livro Crianças Saudáveis, Planeta Saudável (Clique para comprar), um guia ilustrado voltado para crianças de 7 a 10 anos.
De maneira lúdica e acessível, a obra explica os perigos dos cigarros e vapes, ao mesmo tempo em que conscientiza sobre os impactos ambientais devastadores causados pela indústria do tabaco. Mais do que transmitir informações, o livro busca inspirar as crianças a se tornarem agentes de mudança, capazes de proteger a própria saúde e o planeta em que vivem.
Como destacou a Dra. Tânia Cavalcante, do Instituto Nacional de Câncer: “Com linguagem leve e imagens atraentes, essa obra oferece uma oportunidade única de ensinar às crianças, de forma acessível, como escapar das armadilhas do tabaco e ajudar a proteger o meio ambiente.”
Enquanto aguardamos políticas públicas mais eficazes no combate ao tabagismo, não podemos nos omitir. Diálogo precoce, educação e conscientização são ferramentas poderosas — e muitas vezes as únicas barreiras entre nossas crianças e as armadilhas da indústria do tabaco.
Se a indústria já está falando com as crianças, nós precisamos falar mais alto.
*Marília Breite é cientista política e autora do livro Crianças Saudáveis, Planeta Saudável – Clique para comprar