O que falta para uma inclusão integral a PcDs no Brasil?
Acessibilidade precisa avançar para além de projetos de construção de rampas ou cotas em empresas

Imagine estar na pele de uma pessoa cadeirante que começa um novo trabalho. A empresa que a contratou respeita a Lei de Cotas para PCDs e preencheu 5% de seus postos de emprego com oportunidades “inclusivas”. Porém, a acessibilidade no local é insuficiente.
A rampa da entrada estava obstruída e a maçaneta da porta era tão alta que a nova colaboradora teve dificuldades para alcançá-la da cadeira de rodas. O comportamento dos colegas nos primeiros dias fez com que ela se sentisse solitária e excluída, sem espaço para interações nas conversas, com piadas inadequadas e pouca abertura para que ela participasse de happy hour em grupo.
Essa situação, infelizmente, é mais comum do que se imagina. Apesar de o Brasil ter dado passos legais para garantir os direitos da pessoa com deficiência a uma vida plena, como o Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015), os gargalos ainda são grandes.
Obstáculos à autonomia
Temos uma população com deficiência estimada em 18,9 milhões de pessoas com 2 anos ou mais, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). Mas o mesmo levantamento mostra que essa camada está menos inserida no mercado de trabalho e nas escolas.
Além disso, apresentam uma taxa de analfabetismo maior que a média nacional, e muitos não concluem a educação básica. A legislação garante que crianças com deficiência física ou intelectual tenham acesso à escola com espaços adaptados e apoio de acompanhante profissional que possibilite sua integração, mas isso está longe de acontecer na maior parte do ensino público e privado.
Um possível reflexo dessas barreiras desde a infância é que apenas 26,6% das pessoas com deficiência encontram espaço no mercado de trabalho. A taxa de ocupação para o restante da população é de 60,7%. Isso, é claro, afeta renda e autonomia.
Embora muitas soluções de inclusão existam, elas são frequentemente incompletas ou descontinuadas, criando barreiras invisíveis que dificultam a participação plena de muitos em nossa sociedade.
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O que é a acessibilidade real?
A acessibilidade real é aquela que de fato atende às necessidades das pessoas com deficiência, considerando todos os aspectos da vida cotidiana. Envolve também o uso de tecnologias assistivas, sensibilização das pessoas e participação ativa de quem mais precisa nas decisões sobre como garantir a acessibilidade.
A cidade de Oslo, na Noruega, por exemplo, tem um plano para ser totalmente acessível até 2025, com design universal em todos os novos projetos de construção e transporte. Isso não é apenas uma solução pontual; é uma visão para o futuro, que coloca o acesso no centro das decisões.
No Brasil, existem diversos exemplos de espaços que estão comprometidos com a inclusão verdadeira. O Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) é um excelente exemplo. Com audioguias, maquetes sensoriais e acessibilidade comunicacional, ele permite que pessoas com deficiência desfrutem da arte com a mesma liberdade que as demais.
Em Curitiba, o Museu Oscar Niemeyer vai além e oferece réplicas táteis de obras para que pessoas com deficiência visual possam explorá-las. Já o Museu Casa Alfredo Andersen tem uma seleção de pinturas com descrição auditiva. Essas iniciativas são um exemplo de como promover respeito e dignidade.
Espaços acessíveis como esses são fundamentais para a autonomia das pessoas com deficiência. Eles não são apenas lugares físicos – são ferramentas que garantem direitos iguais e participação plena na sociedade.
Contra a acessibilidade superficial
Já a acessibilidade superficial é aquela que parece fácil e simples de implementar, mas não resolve problemas reais. Imagine um elevador que não funciona corretamente ou um site que só tem a fonte ampliada, mas não tem funcionalidades para deficientes visuais. Isso é apenas uma tentativa de criar uma impressão de inclusão sem realmente proporcionar um acesso igualitário.
A conscientização é uma arma contra essa superficialidade, já que amplifica a empatia. Um exemplo recente no Brasil foi a introdução do cordão de identificação das pessoas com deficiências ocultas, a fim de garantir um olhar mais sensível da parte dos outros e permitir que elas tenham rápido acesso aos seus direitos.
É uma conquista importantíssima, mas a falta de sensibilidade já está gerando situações de abuso. Algumas pessoas sem deficiência começaram a usar o cordão indevidamente, criando um problema ético e prejudicando quem realmente precisa de apoio. Ou seja, a ferramenta existe, mas a conscientização sobre seu uso ainda precisa melhorar.
A verdadeira transformação começa quando entendemos que a acessibilidade é um compromisso coletivo. Não basta cumprir leis ou normas mínimas – precisamos criar soluções que atendam de forma genuína à realidade de cada pessoa com deficiência.
Tampouco se trata apenas de projetar rampas ou cumprir cotas; é preciso criar soluções que levem em consideração a independência e dignidade das pessoas.
Isso envolve mudanças nas atitudes, nos comportamentos e na forma como a sociedade enxerga as diferenças. A inclusão real começa na atitude de todos: gestores, educadores, colegas de trabalho, familiares e amigos. Como cada um de nós pode ajudar a tornar o mundo mais acessível?
* Syomara Cristina Szmidziuk é terapeuta ocupacional há mais de 30 anos, com experiência na reabilitação dos membros superiores em pacientes com lesões neuromotoras
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