O calor melhora ou piora a dor?
Entenda como as alterações de temperatura afetam a sensação

Provavelmente você já ouviu falar que o frio pode intensificar certos tipos de dor, como as articulares, tensão muscular nas costas ou até incômodos em cicatrizes antigas. Mas e o calor, será que ele também pode influenciar a percepção da dor?
O calor excessivo e a falta de estrutura para suportá-lo provocam respostas como: desidratação, alteração na pressão arterial e na circulação sanguínea, intensificação dos batimentos cardíacos, alteração de humor e de disposição.
A nossa relação com o calor e a manifestação de dor envolve fatores biopsicossociais que podem piorar ou melhorar a intensidade:
Fatores biológicos ou fisiológicos
• Desidratação diminui a lubrificação articular;
• Vasodilatação altera a pressão arterial;
• Inflamação aumenta os processos inflamatórios.
Fatores psicológicos
• Estresse climático gera mal-estar;
• Desconforto e medo afetam o sistema nervoso central;
• Piora da qualidade do sono intensifica o limiar de dor.
Fatores ambientais e sociais
• A exposição demasiada ao calor, sem recursos para aliviar a temperatura, aumenta a fadiga;
• Leva a mudanças na rotina das pessoas, que afetam o físico e o emocional;
• Diminui a prática de atividade física;
• Dificulta ter conforto e disposição.
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Estresse térmico
Estamos vivendo crises ambientais sérias em todo o mundo, devido a uma grande desorganização do ser humano. Aqui no Brasil, atravessamos ondas de calor insuportáveis que impactam seriamente a saúde.
Diante de instabilidades, nosso organismo conta com um sistema autorregulador. Quando a temperatura se eleva, começamos a suar para que o corpo estabilize, por exemplo. Porém, quando as temperaturas ficam muito altas por tempo prolongado, há uma dificuldade para a manutenção do equilíbrio, levando ao aparecimento de sentimentos de medo e irritação. É o que chamamos de estresse térmico.
Quando o mecanismo de autorregulação não é suficiente, manifestam-se consequências como tonturas, dor de cabeça, tensão nas costas, sede excessiva, inchaço nas pernas e pés. Os sinais provocam sensações físicas e emocionais desagradáveis. O calor intenso também pode afetar o sono e a disposição para as atividades diárias. Para algumas pessoas, a percepção da dor aumenta.
Cada indivíduo reage de forma diferente: algumas adoram o calor e detestam o frio, enquanto outras preferem o oposto. Eu sou do time que prefere o frio, já que lidar com os efeitos biopsicossociais do calor me consome muita energia.
O estresse térmico pode levar à desidratação e também a um estado completo de tensão. É preciso manter o bem-estar físico e mental em meio às altas temperaturas, de acordo com o médico Drauzio Varella.
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Estudos
As pesquisas relacionadas à causa e efeito entre o clima e as dores articulares não são conclusivas, embora muitas pessoas garantam que podem prever o clima com base nessas sensações.
Acredita-se que as mudanças na pressão barométrica, comuns com a variação climática, possam desencadear desconfortos nas articulações. A menor pressão do ar ao redor do corpo permite a expansão dos músculos, dos tendões e dos tecidos cicatriciais próximos às articulações, o que pode gerar pressão e causar dor.
Condições como artrite, fibromialgia e enxaqueca são fortemente influenciadas pela temperatura. A expansão e contração dos tecidos articulares diante do frio ou calor podem intensificar a dor.
Pessoas com fibromialgia, por exemplo, costumam apresentar uma sensibilidade elevada em altas e baixas do tempo, o que amplifica o sofrimento. Já enxaquecas e dores de cabeça são frequentemente agravadas pela desidratação e mal-estar provocados pelo calor extremo.
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Por outro lado, algumas condições físicas podem se beneficiar do clima mais quente, como espasmos musculares ou dores associadas à tensão, pois o calor promove relaxamento muscular e melhora a circulação.
Se você está sentindo um aumento do incômodo em períodos de calor, é importante manter-se hidratado, buscar ambientes frescos e adotar estratégias para minimizar os impactos.
Ronald Melzack e Patrick Wall, cientistas pioneiros no estudo da dor, concluíram que fatores como temperatura, umidade e pressão atmosférica influenciam na percepção de cada um. Temperaturas extremas podem ativar receptores sensoriais e alterar sua sensibilidade, afetando a maneira como o cérebro interpreta a dor.
As pesquisas de Melzack e Wall também nos mostram que as alterações térmicas como temperatura e umidade têm influência nos processos inflamatórios e nas respostas musculares. O frio pode levar à diminuição do fluxo sanguíneo causando rigidez muscular. No sentido contrário, o calor pode promover um aumento da circulação, relaxando os músculos.
Sabendo disso, dá para entender melhor o mecanismo da dor com o calor e, com isso, procurar ajuda especializada tanto para a prevenção quanto para os cuidados necessários.
*Mariana Schamas é cinesiologista, pós-graduada em dor crônica, professora da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora de cuidados paliativos e alívio da dor.