Diabetes, pneumonia e outras doenças que entram pela boca
A negligência com a cavidade oral abre a porta para uma série de problemas, de partos prematuros a doenças crônicas

A boca é uma porta de entrada do corpo, sobretudo para doenças. Com um ambiente propício para a proliferação de bactérias, devido às condições de umidade e temperatura, ela possui um dos habitats mais diversificados do corpo humano.
Uma variedade enorme de micro-organismos, incluindo bactérias, vírus, fungos e protozoários vive na cavidade bucal. As bactérias, em especial, possuem potencial significativo para desencadear infecções e doenças graves e diversas para todo o organismo.
Um dos exemplos mais notórios dessa relação é a periodontite, infecção bacteriana crônica da gengiva, que tem sido ligada a complicações sérias, incluindo partos prematuros e piora de condições crônicas, podendo levar até a morte. Males cardiovasculares e diabetes entram na lista, assim como o Alzheimer.
+Leia também: Visitas regulares ao dentista também protegem o coração
Sim, a inflamação causada pela periodontite pode contribuir para o desenvolvimento e progressão da doença de Alzheimer. Estudos indicam que bactérias associadas à periodontite podem ser encontradas no cérebro de pessoas com a condição.
Nesse caso, a hipótese é que as substâncias inflamatórias produzidas na boca no processo de combate às bactérias atinjam a massa cinzenta e causem danos aos neurônios, acelerando o declínio cognitivo.
Cuidado subestimado
De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde, feita pelo Ministério da Saúde em parceria com o IBGE, mais de 50% dos brasileiros não realizam consultas odontológicas anuais, conforme recomendado.
Além do problema de acesso à saúde básica que ainda enfrentamos como país de terceiro mundo, enxergamos uma subestimação entre a parcela da população que possui condições de marcar consultas particulares. Isso porque a ida regular ao dentista é menosprezada.
Do alto dos meus mais de 30 anos de clínica, me dói observar que a recomendação “visite o dentista regularmente”, é absorvida assim como alertas de bula ou frases de efeito que ninguém presta atenção.
Não deveria ser assim. Consultas regulares permitem detectar precocemente doenças bucais. Manter uma rotina de higiene eficaz, com escovação diária e uso de fio dental, é essencial para evitar problemas não apenas na boca, mas em todo o corpo.
+Leia também: Cuidados bucais também fazem parte de uma vida saudável
Cito aqui outros exemplos de doenças que podem entrar pela boca. E espero que, com tais informações, eu possa contribuir para uma mudança de chave para a valorização da odontologia, que tem como função primordial cuidar da saúde e da função, tendo a estética somente como uma aliada.
Doenças cardiovasculares
Segundo estudo do Instituto do Coração (InCor), da Universidade de São Paulo (USP), 45% das doenças cardíacas pode ter início na cavidade bucal. Entre elas estão a endocardite bacteriana, aterosclerose, arritmia, acidente vascular cerebral (AVC) e até mesmo o infarto.
Uma simples cárie ou uma gengivite também podem ser ponto de partida para que bactérias presentes na boca entrem na corrente sanguínea, espalhando pelo corpo, e atingindo o coração.
Diabetes
A periodontite aumenta a inflamação no corpo, o que pode piorar o controle glicêmico em pessoas com diabetes. A inflamação crônica dificulta a ação da insulina, hormônio que regula o açúcar no sangue.
A diabetes também aumenta o risco de periodontite, criando um ciclo vicioso. Há, inclusive, relação da gengivite e da cárie com o desenvolvimento da doença.
Parto prematuro
Periodontite se apresenta aqui de forma muito perigosa. Isso porque as substâncias inflamatórias podem atingir a placenta e desencadear o trabalho de parto prematuro. A inflamação no corpo também pode contribuir para o baixo peso do bebê ao nascer.
Por isso, é fundamental o exame pré-natal no dentista para prevenir e tratar a infecção.
+Leia também: Periodontite em gestantes dobraria o risco de parto prematuro
Pneumonia
As bactérias presentes na boca podem ser aspiradas para os pulmões, especialmente durante o sono, e causar pneumonia. Isso não é tão comum, mas pode ocorrer em pessoas com higiene bucal deficiente, claro, sistema imunológico enfraquecido ou dificuldades de deglutição.
Importante dizer que a higiene oral rigorosa – ainda que em pacientes internados, quando possível – é fundamental. Isso porque a pneumonia associada à ventilação mecânica é uma complicação grave em pacientes hospitalizados, e a presença de bactérias orais na boca aumenta o risco dessa infecção.
Doença de Alzheimer
Como expliquei no início, substâncias inflamatórias produzidas na boca podem atingir o cérebro e causar danos aos neurônios, acelerando o declínio cognitivo. Somado a isso, estudos apontam a presença de bactérias associadas à periodontite no cérebro de pessoas com Alzheimer.
Ir ao dentista somente quando há cárie e dor, ou para fazer procedimentos estéticos, é subestimar muito a importância da boca e seus impactos em nosso corpo.
Escolher um profissional experiente, que priorize o diagnóstico é de suma importância. Exigir que seu dentista faça um exame clínico detalhado, também. Duas vezes ao ano é até pouco, perto dos ganhos da prevenção.
*Marcelo Kyrillos é sócio-fundador do Ateliê Oral, clínica odontológica presente no mercado há mais de 30 anos