Aumento dos casos de câncer, o efeito pouco falado das mudanças climáticas
Poluição e aumento da radiação solar elevam o risco de diversos tumores, além de gerarem diversos outros problemas à saúde

No último ano, o Brasil vivenciou eventos climáticos extremos, a começar pelas inundações no Rio Grande do Sul, passando pelas longas estiagens na Amazônia e no Pantanal e as fortes tempestades no Sudeste.
Resultado do aquecimento global, as mudanças climáticas são uma ameaça não só ao meio ambiente, como também à saúde humana.
A Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco), que reúne mais de 50 mil especialistas ao redor do mundo, alertou que um dos efeitos das mudanças climáticas é o aumento do risco de câncer.
Os motivos são desde a elevação da temperatura como a maior exposição das pessoas aos raios ultravioletas, à poluição do ar e a produtos químicos tóxicos. Ao provocar desastres naturais, o fenômeno reduz ainda o acesso ao rastreamento do câncer e interrompe o tratamento da doença, como a radioterapia, cujas sessões precisam ser diárias.
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Segundo o World Weather Attribution (WWA), um grupo de cientistas de diferentes países que investiga o assunto, o Brasil viveu este ano o junho mais seco, quente e ventoso desde 1979, quando começaram os registros.
Enquanto a estiagem perdurou, o fogo se alastrou pelo território nacional, destruindo florestas e matas nativas e disseminando na atmosfera poluentes como óxido de nitrogênio, monóxido de carbono, hidrocarbonetos e material particulado, além de substâncias altamente tóxicas.
Diversos trabalhos científicos vêm demonstrando o impacto da poluição do ar sobre a incidência de câncer, principalmente das partículas finas – menores que 2,5 mícrons, ou cerca de um trigésimo da largura de um fio de cabelo humano. Um estudo anglo-americano apontou que os poluentes respondem por cerca de 14% dos casos de câncer de pulmão em todo o mundo.
A prestigiada revista Nature publicou em novembro um artigo mostrando que o risco de câncer de cabeça e pescoço aumenta com a exposição a determinadas partículas de poluentes, principalmente se o período em contato com elas ultrapassar for maior do que cinco anos.
A poluição também tem grande impacto sobre o câncer de mama. Pesquisadores norte-americanos associaram o aumento da concentração de 10 µg/m3 (10 microgramas por metro cúbico) de partículas finas à incidência geral da doença em seis estados daquele país. Eles chegaram a essa conclusão após avaliar dados de 196.905 mulheres dessas localidades, ao longo de 20 anos, das quais 15.870 tiveram a enfermidade.
Outro efeito do aquecimento global é a alteração da camada de ozônio e o aumento dos raios ultravioleta, que contribuem para o surgimento do câncer de pele. Estudiosos do tema calculam que, a cada 1% de redução da espessura da camada de ozônio, a incidência de melanoma cresce de 1% a 2%.
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Embora seja responsável por apenas 3% dos casos de câncer de pele no Brasil, o melanoma é o tumor mais preocupante, devido à sua capacidade de metástase. Em estágios iniciais, é tratado por meio de cirurgia. A doença avançada requer um tratamento complementar com imunoterapia ou terapia-alvo.
Neste contexto, os pesquisadores acreditam que as campanhas de saúde pública em favor da fotoproteção devem ser intensificadas, seja pelo uso de protetores solares ou físicos — como chapéus, blusas de mangas compridas e barracas —, seja ao evitar exposição ao sol entre as 10 horas e 16 horas.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) revelou sua preocupação com o impacto das mudanças climáticas sobre a saúde de 20 milhões de brasileiros que trabalham expostos ao calor excessivo e ao sol, principalmente na limpeza urbana, na agropecuária e nos transportes.
A entidade acredita que essas categorias profissionais devem passar por adaptações nas condições de trabalho, como o uso de equipamentos de proteção apropriados e jornadas de trabalho que não coincidam com os picos de calor e radiação solar.
Hoje, os especialistas em oncologia estão atentos ao aumento dos casos de câncer e a possíveis fatores ambientais que influenciem esta alta. Acredito que mais estudos irão sair sobre esta temática. Assim, poderemos ter mais dados para dimensionar o problema num futuro próximo e também no presente.
*Daniel Musse Gomes é médico oncologista da Oncologia D’Or e pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino