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A COP30 e as feridas abertas no Pará

Brasil se posicionará como liderança socioambiental, mas descaso com percalços ambientais na cidade paraense de Barcarena podem manchar esse título

Por Ana Seleme, advogada*
5 Maio 2025, 09h14 •
cop-30-para-barcarena
Histórico de descaso ambiental pode manchar imagem do Brasil (Ilustração: Zansky/Veja Saúde)
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  • O Brasil se prepara para sediar a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025, a COP30, na cidade de Belém, no Pará.

    O maior evento da área ambiental será realizado na Amazônia, centro de atenção de ambientalistas de todo o mundo por concentrar riquezas minerais, ampla biodiversidade e uma das maiores reservas de água doce do planeta.

    É grande a expectativa de que o país saia do encontro reconhecido como uma liderança socioambiental. Afinal, quando as potências preferem adotar um discurso negacionista, sobram a nações como a nossa o espaço e o protagonismo para brilhar no cenário global.

    +Leia Também: Popularizar a ciência é um dos pilares para enfrentar o negacionismo

    O problema da alta expectativa é que, além desse Brasil promissor e responsável, existe outro Brasil, com um histórico de impunidade de crimes ambientais e um sistema de governança que falha justamente na hora de proteger as pessoas mais carentes e mais afetadas por desastres.

    E não será preciso ir longe para conhecer esse outro país. Ele está logo ali, na cidade de Barcarena, a poucos quilômetros da capital paraense, onde a conferência das Nações Unidas irá acontecer. Pertencente à região metropolitana de Belém, Barcarena convive desde o início dos anos 2000 com inúmeros percalços ambientais e descaso dos governos e da Justiça.

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    Sim, parte considerável desses desastres foi causada por empresas estrangeiras instaladas no local. O passivo ambiental dessas companhias inclui despejo de rejeitos tóxicos, contaminação de rios e igarapés e danos irreversíveis à saúde da população local.

    A comunidade ribeirinha, que vive da água e na água, em suas casas sobre palafitas, sofre e denuncia há anos os efeitos causados pela contaminação ambiental, só que nada de efetivo acontece.

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    Relatórios de instituições de pesquisa, como o Instituto Evandro Chagas, apontam níveis de toxicidade alarmantes na população.

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    Estudos da Fiocruz, por sua vez, mostraram que moradores de Barcarena apresentavam concentrações de metais pesados no sangue muito superiores ao recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

    O resultado não poderia ser diferente: um aumento expressivo de doenças graves, especialmente tumores gastrointestinais, leucemia e problemas renais.

    O Atlas de Mortalidade do Instituto Nacional de Câncer (Inca), ligado ao Ministério da Saúde, registra um crescimento superior a 600% de mortes por câncer em Barcarena entre os anos de 2000 e 2022. Esse índice está muito acima do aumento populacional, que foi de 100%.

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    Com a COP acontecendo no Pará, essa ferida aberta será inevitavelmente exposta, desafiando a legitimidade dos compromissos governamentais.

    Resta saber se o evento que chamará a atenção do mundo todo servirá apenas para discursos e fotos ou finalmente será um marco na luta por justiça ambiental.

    Ana Seleme é advogada, representante do Instituto dos Ribeirinhos do Pará (IRPA), fundadora da Frente em Defesa dos Atingidos pelo Rio Doce (FredaRio) e diretora da Frente Brasileira pelos Poupadores (Febrapo), na qual coordena o maior acordo coletivo do judiciário brasileiro

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