Adoçantes sem ou de baixas calorias: mocinhos ou vilões?
Estudos científicos comprovam que além de seguros, esses produtos podem ser importantes aliados para uma dieta saudável e controle de peso

Faz bem ou faz mal? De tempos em tempos surge uma polêmica sobre os benefícios ou prejuízos do consumo de determinado alimento. Foi assim com o ovo, o café e diversos outros itens, até que se comprovou que eles podiam fazer parte da alimentação sem oferecer riscos.
Agora, ao que parece, os adoçantes sem ou de baixas calorias (LNCS), também conhecidos como adoçantes intensos, de alta intensidade, de alta potência, de baixa caloria, ou não açucarados, ganharam os holofotes e vêm sendo encarados, por alguns, como vilões.
Mas será que eles exercem, mesmo, esse papel? Ou será que podem ser aliados de uma dieta saudável e para o controle de peso?
Para esclarecer estas dúvidas, é importante considerar o cenário no qual os brasileiros estão inseridos e que este público é fã do sabor doce – e bem doce.
Bolos, pudins, brigadeiros, café, achocolatados, entre outros alimentos, levam, geralmente, muito açúcar. E, enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a ingestão do ingrediente não ultrapasse 10% das calorias diárias, a média, no Brasil, é de 14% por pessoa1.
Consumo excessivo de calorias e açúcares: um potencial risco para a saúde
A ingestão excessiva de calorias, gorduras, sal e açúcares pode causar diversos danos à saúde. Entre os principais prejuízos observados, está a obesidade, que, hoje, no país, atinge cerca de 34% dos adultos – e a tendência é um agravamento desse quadro.²
Segundo uma pesquisa apresentada recentemente no Congresso Internacional sobre Obesidade (ICO 2024), estima-se que, em 2044, cerca de 48% dos brasileiros serão acometidos pela obesidade2.
E os problemas advindos do consumo exagerado de açúcar podem impactar na formação de cáries e sobrecarregar o pâncreas. Nesse caso, aqueles que têm tendência genética ao diabetes podem começar a produzir insulina em quantidade insuficiente ou ficar resistentes a ela. Atualmente, de acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), cerca de 20 milhões de brasileiros (10,5% da população) têm diabetes3,4.
Daí, vem o dilema: se o excesso de açúcar pode ser prejudicial, qual é a saída para aquelas pessoas que apreciam o sabor adocicado?
Uma das opções, segundo especialistas, está na substituição de parte dos açúcares pelos adoçantes sem ou de baixa caloria (LNCS), importantes aliados para quem procura se alimentar de forma mais equilibrada.
LNCS: aliados em uma dieta mais saudável
Especialistas em todo o mundo têm alertado que seguir uma alimentação nutritiva e balanceada, bem como adotar um estilo de vida equilibrado, são hábitos fundamentais para melhorar a saúde e o bem-estar geral.
Neste contexto, segundo Laurent Oger, Diretor Geral da ISA (International Sweeteners Association), a decisão de optar por alimentos ou bebidas adoçadas com LNCS tem sido associada a uma melhor qualidade alimentar em diferentes populações ao redor do mundo, como nos EUA5, Reino Unido6 e Brasil7.
“Em um momento em que as taxas de obesidade e doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) continuam a crescer em todo o mundo e com fortes recomendações para limitar o consumo de açúcares livres, os produtos com adoçantes sem ou de baixas calorias podem ajudar as pessoas a reduzirem a ingestão de açúcar como parte de uma dieta saudável.”

Viver com o diabetes sem renunciar ao sabor
Segundo Oger, falar sobre LNCS para pessoas com diabetes é reforçar a importância de manter uma alimentação saudável e de qualidade, sem abrir mão dos prazeres de comer.
“Os LNCS não afetam o controle da glicose, da mesma forma que não afetam a secreção de insulina nem os níveis de insulina no sangue. Além disso, os adoçantes sem ou de baixas calorias são úteis por oferecer opções de alimentos e bebidas doces sem comprometer o controle da glicose, o que é crucial para esse grupo”, ele explica.
Porém, faz um alerta: “Não se deve esperar que os LNCS diminuam os níveis de glicose no sangue, pois eles não são substâncias com efeitos farmacológicos. Mas, dentro de uma dieta equilibrada, eles podem ajudar as pessoas a terem mais opções alimentares e satisfazerem o desejo pelo sabor doce sem elevar os níveis de glicose no sangue ou aumentar a necessidade de insulina”.
Nos últimos dez anos, várias organizações relacionadas ao diabetes em todo o mundo, incluindo a Associação Americana de Diabetes (ADA), o Grupo de Estudo de Diabetes e Nutrição (DNSG) da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD), Diabetes UK, Diabetes Canadá e a Associação Latino-Americana de Diabetes (ALAD), publicaram diretrizes de práticas clínicas e nutricionais, declarações de posição ou relatórios de consenso sobre o uso de adoçantes sem ou de baixa caloria para diabetes.8
Como os LNSC ajudam no controle de peso
De acordo com o Diretor Geral da ISA, revisões sistemáticas abrangentes e meta-análises de ensaios clínicos randomizados (RCTs), que são as evidências de maior qualidade para examinar os efeitos potenciais dos adoçantes de baixa ou nenhuma caloria, indicaram um papel benéfico na substituição do açúcar por adoçantes de baixa ou nenhuma caloria na redução da ingestão calórica total e, consequentemente, no controle do peso corporal.9,10 Porém, o impacto geral depende da quantidade de açúcares e calorias substituídos na dieta com o uso de tais produtos.
“Revisões sistemáticas e meta-análises recentes constataram que o uso de LNCS resulta em redução clinicamente significativa do peso corporal ou índice de massa corporal (IMC). Esse efeito favorável foi mais significativo quando os adoçantes foram utilizados como substitutos do açúcar, especialmente em adultos com sobrepeso ou obesidade, e naqueles que seguem uma dieta sem restrições”. Os resultados mostraram que substituir o açúcar por adoçantes sem ou de baixa caloria gerou uma perda de peso média de -1,3 kg para a população geral, com esse número aumentando para cerca de -2,5 kg em pessoas com sobrepeso/obesidade.9
“Duas outras revisões sistemáticas e meta-análises de ensaios controlados randomizados (ECRs), apoiadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS), encontraram um pequeno efeito benéfico do uso de adoçantes sem ou de baixas calorias no peso corporal e no IMC.11,12 Ao analisar subgrupos de pessoas com sobrepeso e obesas, o uso desses adoçantes resultou em uma redução de aproximadamente 2kg no peso corporal.11 Todas essas revisões confirmam os efeitos benéficos sobre o IMC e o peso corporal quando os adoçantes são usados como substitutos do açúcar, sugerindo que eles podem ser uma ferramenta dietética útil para melhorar a adesão aos planos de perda ou manutenção de peso”, explica ele.
No entanto, é importante ressaltar que, sozinhos, os adoçantes de baixa ou nenhuma caloria não garantem perda de peso. Especialistas orientam que o benefício seja integrado a uma dieta de qualidade, com controle sobre a quantidade de calorias e açúcares substituídos.
Aprovações criteriosas
Comprometida com o compartilhamento de evidências científicas sobre adoçantes sem ou de baixas calorias (LNCS), a ISA conscientiza que tais produtos têm sido usados com segurança pelos consumidores há mais de um século.13-15
Eles estão entre os ingredientes mais pesquisados pela comunidade científica e foram aprovados como seguros para uso pelas agências de segurança alimentar em todo o mundo.
Oger ressalta que, se um ingrediente foi aprovado pela agência reguladora do país, ele passou por um rigoroso processo de avaliação que atestou sua segurança para o consumo.
“No Brasil, o processo de aprovação de adoçantes pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) segue uma série de etapas rigorosas para garantir a segurança dos produtos. Alguns países da América Latina aprovam o uso de LNSC com base na avaliação de segurança do Comitê Conjunto de Especialistas em Aditivos Alimentares (JECFA) e nas disposições do Codex Alimentarius, um órgão formado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e a Organização Mundial da Saúde (OMS). Já nos Estados Unidos e na Europa, a avaliação da segurança de todos os aditivos alimentares é responsabilidade da Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA) e da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), respectivamente. Esses órgãos reguladores têm consistentemente confirmado a segurança dos LNSC aprovados nos níveis atuais de uso”, ele conclui.
Referências
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